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domingo, 13 de março de 2011

Elogio ao amor


Carnaval passou, e nem deixou tanta saudade. Também, já virou rotina apesar do espaço de tempo que separa as suas sessões. Aqui, no Brasil, muitos costumam pensar que o ano só começa após o carnaval. A verdade é que a vida continua depois dele, pois a sensação de pôr os pés no chão depois do carnaval é de que tudo não passou de um sonho. Quem vive o carnaval, costuma, inclusive, sonhar com ele algumas poucas vezes durante o ano como uma manifestação inconsciente de amor ao seu povo e esperança de encontrar um amor para si. Alguns conseguem encontrar o seu amor, e por isso, fazem uma relação de continuidade entre a realidade e o sonho. Os que não conseguem, costumam encarar a volta aos pés no chão com naturalidade, escondendo a frustração de estar vivendo uma vida insignificante. Lógico que somos humanos, e por isso, temos grandes desejos de realização que não se adequam à real dimensão do mundo. Sempre estamos a procurar algo de melhor para as nossas vidas, e o fato de amar alguém auxilia energeticamente nessa busca. Somos demasiadamente humanos, e por isso, devemos investir nossas energias amorosas em alguém, é só assim, poderemos expelir todo o nosso potencial criativo na busca do nosso algo a mais. Não sei por que, mas tenho como exemplo disso o Ariano Suassuna: Toda a sua vida dedicada à literatura e à cultura popular, mas sempre com uma companheira do lado, a sua primeira namorada desde os 13 anos de idade. Não precisou procurar mais ninguém, e por isso, pôde investir toda aquela energia - que poderia estar sendo desperdiçada na procura por um amor ideal - na literatura.


Comecei falando sobre o carnaval, mas lógico que é sobre o amor que eu gostaria de falar. Faz parte de mim, pois venho vivenciando algumas frustrações amorosas ultimamente, e consequentemente, um estado de carência. Sei que é tudo minha culpa, e sei o quanto tenho que melhorar. Também não vivo nenhuma grande fatalidade, até porque, enquanto jovem da classe média, carrego na memória a frase de Gonzaguinha como uma ridícula manifestação de insatisfação e esperança: “eu sei, que a vida poderia ser bem melhor e será”. Mas uma coisa é certa, não posso ignorar isso, pois tá diretamente relacionada com meu crescimento. Amar alguém é o mínimo que devemos ter; faz parte não de um simples desejo, mas de uma necessidade básica secundária: o sexo. Alguns leitores mais hipocritamente moralistas (acho que não é o caso dos meus) poderia encarar essa última afirmação como vulgar, mas tá muito longe disso. Já devo ter mencionado em outros posts que o sexo tá entre necessidades básicas do ser humano. Também devo ter mencionado que necessidades básicas estão relacionadas com o instinto, e consequentemente, com a sobrevivência do ser humano, e que nesse sentido o sexo se caracteriza como um instinto secundário, pois está relacionado com a sobrevivência da espécie humana. Lógico que essa afirmação biológica de alguns séculos anteriores ignora as descobertas científicas atuais como a inseminação artificial, bem como a diversidade sexual. Quero aproveitar e citar o psicólogo americano Albert Ellis, criador da terapia Racional-Emotiva. Diz ele: - “Costumamos pensar que ‘preciso encontrar com minha amiga’, ‘preciso fazer meu trabalho de faculdade’, ‘preciso fazer isso ou aquilo’. Tá tudo e errado, pois só precisamos de três coisas na vida: comer, dormir e fazer sexo. O resto são apenas desejos”. Acho também que já o citei antes, mas o que quero afirmar com tudo isso, é que todos precisam amar, e amar não pode ser com qualquer um, não nos tempos de hoje; precisamos encontrar o nosso amor verdadeiro. É uma sina, e não devemos ignorá-la.


Além, dessa concepção biológica, que para alguns leitores possa soar tão maniqueísta, há também outra que eu gosto muito: a existencial. Amar alguém é reconhecer-se diante do olhar do outro. Existência se dá na relação, no outro que olha pra mim e diz: “você é...”. E mesmo que ele não diga nada, basta olhar no sei sorriso, no seu toque, sentir o seu abraço, captar o calor que ele transmite. É saber que, estando aqui, estou sendo pensado por alguém, e uma vez sendo pensado, estou ensinando algo para esta pessoa... aí, citando um filósofo que gosto bastante, o Martin Buber: “minha mensagem está sendo captada por alguém assim como eu capto as mensagens das pessoas tal qual as informações midiáticas que me são transmitidas”. É esse o amor que faz uma criança saudável, que se reconhece no olhar e no toque da mãe, segundo Donald D. Winnicot. É esse o amor que um dia se expandirá para os mais diversos espaços da sociedade, deixando as minhas impressões digitais nas pessoas que comigo se encontrarem. E quando um casal tem um filho? É quando a extensão da existência alcança o seu maior alcance, pois o filho representa uma continuidade da nossa existência, e a marca que antes era nossa, agora está nele, que passará para outros, para depois passar para os filhos dele, e assim sucessivamente. E quando as duas concepções anteriormente apresentadas se unem numa só: O amor com sexo. O sexo como uma necessidade, e que portanto está relacionada ao prazer, junto com o amor que expande a nossa existência. É, por assim dizer, o amor ideal, que tantos buscamos em nossas vidas, e que talvez nunca encontremos o que faz da nossa existência, algo bem menor. Mas fora estas concepções, o amor ainda possui outras. Só para citar exemplos, temos a cristã, onde podemos encontrar o amor fraterno, aquele que fez com que Jesus morresse por nós. E várias outras formas de amor também existem, e para isso temos a teoria de Alan John Lee intitulada “Estilos de amor”. Recomendo aos interessados que procurem na internet, pois já tá na hora de encerrar o texto, considerando que prezo pelo seu tamanho acessível. Termino então com uma frase que não concordo tanto, mas que se aplica a este momento: O amor é tudo, e sexo é mais ainda.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Carnaval 2011: Diversidade cultural ?


Vai começar mais um carnaval pernambucano. Mais uma manifestação de alegria, sensualidade, musicalidade e excentricidade. Época em que Colombina pede licença a Alecrim para ir atrás de Pierrô. E essa terra de Manuel Bandeira é que o bicho pega. Os clubes e as ruas se enchem de pessoas fantasiadas ou não, de grupos dos mais variados estilos musicais daqui (e de fora também, ponto que vou destacar logo mais), bonecos gigantes, dançarinos de frevo, barracas e isopores vendendo bebida e comida. O antigo e o novo se encontram, o rico e o pobre também. Sejam misturados na rua, ou segregados em seus clubes carnavalescos. Uma coisa é certa: o Carnaval é pra todos. Haja democracia, e justa por sinal; pois a vida é tão dura e todos devem ter o mesmo direito de esquecer problemas durante quatro dias. Há muita coisa a ser dita sobre o carnaval, principalmente por mim, que venho curtindo esta brincadeira há doze anos no mesmo endereço: Olinda e Recife antigo. Mas é sobre outra coisa que eu queria tratar aqui; tem haver com o carnaval, mas é um triste fenômeno que de tão recorrente, parece que é sempre novo: a Desvalorização da nossa cultura.

Vinha eu percorrendo o caminho de volta para minha depois de deixar minha irmã mais nova, Miriam, em seu trabalho, quando – parado no engarrafamento da avenida Agamenon Magalhães – ligo o rádio na minha estação predileta, a Universitária FM 99.9, para ouvir o programa comandado e apresentado pelo compositor de frevo, Hugo Martins, e intitulado: Carnaval 2011. Programa em que, assim como na emissora de um modo geral, a cultura pernambucana é defendida a todo o instante. Nesse dia, Hugo havia recebido um convidado especial: Geraldo Maia - cantor natural de Pernambuco, que procura tanto reinventar a nossa música, sem perder de vista as nossas raízes, como também homenageia cantores do passado que foram marcantes em sua influência musical. Pois bem; só que nesse dia, Geraldo Maia encontrava-se indignado com o tratamento oferecido pelos nossos governantes à nossa cultura popular, e expressou toda a sua indignação através de ataques severos e emocionados, e que mexeu tanto com as minhas emoções quanto com as minhas opiniões. O fato: Geraldo Maia não teve o seu projeto de show para o carnaval aprovado pela Fundarpe (Fundação do patrimônio histórico e artístico de Pernambuco) em nenhum dos espaços, em nenhuma cidade do estado inteiro. Foi triste para o carnaval de Pernambuco; não somente porque foi ele, Geraldo Maia, quem ficou de fora, mas assim como ele, muitos artistas que estão batalhando para terem o seu trabalho reconhecido, também ficaram. No decorrer da sua fala, Geraldo falou que colegas alguns dele, hoje reconhecidos e consagrados, tiveram o seus projetos aprovados e ganharam até quinze espaços de apresentação, enquanto ele ficou sem nenhum. Ele não citou nomes, mas quem conhece o carnaval daqui, deve saber bem quem são. A questão é: o que será da música pernambucana e do seu carnaval nos próximos anos se não permitirmos que novos artistas possam mostrar o seu talento? O que vai ser quando esse que estão aí consagrados morrerem? É preciso dinamizar mais a aparição destes artistas, permitir que saiam da toca, valorizar o que é produzido na nossa terra. Por falar em valorização, esse é o tema central. Tô contigo, Geraldo Maia.

Acompanhando outras edições do programa de Hugo, sempre com convidados indignados, é que percebemos o estado em que se encontra a valorização da nossa cultura. Só pra citar alguns exemplos: 1)O presidente do bloco “Virgens do Bairro novo” de Olinda proibiu orquestras de frevo de desfilarem no bloco. Frevo é a música mais característica do nosso carnaval, e é bem sofisticado, com metais e tambores soando alto. Pena que aos olhos de uns mais jovens pareça música de velho. 2) O prefeito do Recife, João da Costa (também conhecido como João da Bosta) juntou a festa do rei momo com a eleição do rei e rainha do carnaval, do baile municipal. Diga-se de passagem que a festa do rei momo é uma tradição. O que me deixou feliz foi a resistência de algumas pessoas que conseguiram realizar a festa do rei momo sem a prefeitura. Com isso, não quero dizer que todas as pessoas são imbecis e ignorantes com a sua cultura, nem que não devemos trazer grupos de fora para cá; mas que o carnaval deveria priorizar a nossa cultura, pois o grande problema dela é simplesmente um problema de valorização. Hugo Martins elogia bastante o baiano, porque sabe valorizar a sua cultura, a sua música. No carnaval, eles só tocam música baiana. E viva o povo baiano, tô com você hugo!! O baiano não invade lugar nenhum, nós é que mandamos chamar o baiano. Garanto que se não fosse pela valorização, o Samba-Reagae tocado naqueles trios-elétricos da Bahia, seria uma música tão chata de se ouvir quanto é o frevo aqui para algumas pessoas.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Fim do ano passado, Tio Benito e Deus na visão de Henri Bergson




Feliz ano novo atrasado a todos os meus leitores. Obrigado pelo incentivo tia Mércia, Sérgio, Breno e Sophia. Espero que este ano de 2011 possa ser bastante construtivo para todos nós; e que o sucesso não parta somente de acasos ou milagres, mas tenham suas raízes nos nossos esforços individuais e coletivos. Que estes esforços possam ser bem reconhecidos pela luz de nossas consciências. Tive um final de ano um tanto abalado devido a morte do meu tio Benito; o irmão mais querido do meu pai e um sujeito admirado por todos nós, especialmente por mim, que tive um relacionamento distante devido à distância física que nos separava. Ele morava em Macau, no rio Grande do Norte, enquanto sua família mora, em sua maior parte, aqui em Recife. Ele foi um grande professor de ciências sociais (enquanto tal, foi fundador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte em Macau) um grande poeta (teve alguns livros publicados) um grande político (não me lembro dele ter ocupado algum cargo público, mas sempre participou ativamente da política de Macau)... Enfim, um grande homem e um grande fidalgo. Foi, talvez, a pessoa mais importante para a história de Macau nos últimos 30 anos, e nas palavras do seu amigo, padre Murilo: Benito estava a trezentos anos à frente de nós, e só daqui a trezentos anos é que o povo de Macau irá entender as palavras de Benito Barros. E além de Tio Benito, ainda enfrentei um trabalho de apoio psicológico às famílias dos trabalhadores da transposição do Rio São Francisco que foram mortos e feridos devido a uma dinamite que explodiu num momento errado: ocasião em que eles se encontravam a uma distancia inferior a quinhentos metros dá área da explosão. Acompanhei o sepultamento dos mortos e a atenção hospitalar aos feridos, tudo em clima de muito sofrimento e tensão por parte dos familiares. A parte boa foi que esse trabalho me redeu três mil e quinhentos reais ao todo, somando as horas de trabalho (39 horas). Mesmo assim, ainda me senti mal, por pensar que tal bolada só foi possível graças à desgraça dos outros. Mas a vida segue sempre esse caminho cíclico dos que morrem e dos que nascem... e não haverá Deus nem ciência para reverter isso daí. O que eu peço a Deus nessas horas, é que a eternidade seja um bom lugar para todas as almas, além das boas, claro, como a do meu tio Benito. Nas palavras do meu tio Faé: vai que Deus estava precisando dele lá no céu, uma pessoa competente para ocupar o cargo de secretário do universo.

Mas é sobre Deus que eu queria tratar neste texto já que toda essa experiência vivida por mim nos últimos dias de 2010 é, em síntese, uma experiência de vinculação da matéria com o espírito, de sintonia do homem com o sagrado. Na verdade, só vou tratar de um pequeno aspecto dele, pois o todo-poderoso é talvez o mais amplo, mais complexo e mais profundo de todos os assuntos. São muitas linhas de teologia que vêm sendo traçadas até hoje com o intuito de estuda-lo, e portanto, não será um textinho mixuruca de blog que irá abordá-lo em sua totalidade. O contexto que escolho para expor uma visão particular (mas nem tanto, por ser fundamentada filosoficamente) é a da diversidade religiosa que habita todos os habitats humanos do planeta terra. O cenário dessa diversidade mais se assemelha a um mercado de religiões, todos a disposição do homem para que este escolha qual o Deus que ele mais se identifica. Em cada uma delas, Deus possui um nome: Deus, Alá, Buda, Krishina, Olorum ... e outros que não me vêm à mente no momento. Cada um deles é dotado de um sistema de verdades religiosas, valores morais e éticos e histórias dotadas de provérbios à respeito da origem de tudo e de todos. Antigamente, cada religião possuía o seu território de dominação, e a história da população deste território se confundia com a história desta religião. A expansão de uma religião além do seu território ou mesmo a invasão de um território alheio por parte de outra religião muitas vezes resultava em conflitos banhados de sangue. O advento da era moderna, juntamente com a progresso em escala global para uma economia capitalística neoliberal de livre intervenção permitiu com que esses conflitos fossem amenizados em prol de uma abertura, também para as religiões. É uma pena que esta abertura ainda não foi possível para algumas regiões como a do estado da Palestina, que nos dias de hoje, ainda vivencia conflitos religiosos entre judeus e árabes. E apesar da existência ou não de conflitos violentos, o centro da discussão entre os religiosos das diferentes religiões nunca deixa de ser o mesmo: qual Deus é o mais verdadeiro? O meu ou o seu?

Sobre essa questão, eu tenho uma idéia que não é propriamente minha, pois é embasada na visão de um grande filósofo francês: Henri Bergson. Para ele, Deus é o Ser Criador, que criou o mundo, história essa que ouvimos falar antes. A diferença está no plano em que este deus se encontra: Dentro de nós, de modo que podemos alcança-lo através da nossa transcendência, da nossa evolução espiritual, emocional e cognitiva. Diz ele ainda que a poder da criação foi designado também ao homem, e que este pode se aproximar da condição divina, de Deus, quando este exerce o poder criador de forma plena. E vamos além...Criar, na visão de Bergson não significa inventar coisas, descobrir através da ciência; não, é de outra criação que ele trata. É da criação humana que ele trata, aquela que se dá na relação do eu com os outros, na inserção do homem na sociedade. Criar através de uma nova ou antiga relação é permitir o acontecimento da aprendizagem no campo desta; é me fazer presente na vida de uma pessoa mesmo quando estou ausente dela, pois ela carrega o meu modo de ser na construção de sua identidade, e quando estamos juntos, estamos de tal forma que nosso poder criador encontra-se em grau elevadíssimo. Ao estender o seu pensamento sobre o fenômeno criador, Bergson destaca alguns conceitos que são chaves nele. Um deles é a “Intuição”. A intuição se contrapõe às instituições, que são estruturas rígidas localizadas na sociedade, que barram o processo criativo, paralisando o nosso corpo perante o peso as estruturas que estão fora de nós. É na intuição que a vida se movimenta, é nela que reconhecemos o nosso poder perante as instituições e a criatividade possa acontecer na minha relação com estas instituições. Assim sendo, qual religião possui o Deus mais verdadeiro? Eu diria que todas possuem um Deus verdadeiro, pois a verdade está aonde a criação também está. Não adianta eu estar numa religião aonde a criação não aconteça, aonde eu não consiga me ver naquela verdade, de modo que a minha vida não muda e nem eu me torne um ser mais criativo na minha relação com as outras pessoas. Ou seja, a verdade religiosa é um processo singular, pois diz respeito ao despertar do meu processo criador no contato com essa ou aquela religião. É importante destacar também na visão de Bergson, o que ele pensa sobre o Amor. É através do amor que a criação da vida acontece, é a condição para isto; o contrário dele é o contrário da criação; ou seja, a destruição. Se eu me encontro numa religião aonde a verdade dela não faz bem nem a mim e nem às pessoas que estão perto de mim, então não há criação, pois não há aprendizagem, reflexão, liberdade, intuição. Todo como exemplo alguns grupos radicais da religião mulçumana, que atacam os judeus na palestina sob a crença de que é o caminho de Alá para implantar a paz no mundo e varrer o mal da terra. Bem, isso só se consegue debaixo de sangue. Agora, percebam o seguinte: eu não estou falando da religião mulçumana em si, pois esta enquanto religião, ele está a favor da criação entre os seus seguidores. Me refiro aos grupos radicais, bem como outros que existem em outras religiões, que não favorecem o processo criador e terminam por criar mais instituições ao nosso redor. Enquanto um cara religioso, porém, sem religião definida,venho procurando conhecer os dizeres de diversas religiões. Me considero católico apostólico romano, religião sob a qual fui concebido socialmente; mas a minha visão de Deus é a que Henri Bergson me ensinou. Deus é Henri Bergson.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Guilherme Lamounier e um pouco do cenário musical brasilero da década de 70



Falar de Guilherme Lamounier é fazer uma viagem à cena musical brasileira da década de setenta, bem como se aventurar teoricamente em busca de entender os motivos que fez com que um artista tão bom como ele fosse completamente esquecido. Tomo-o como referência porque o descobri recentemente e venho escutando ele bastante no toca-CD do meu carro; mas deve-se levar em conta que o mal do ostracismo recaiu sobre uma centena de artistas daquela época. Ao final deste texto, pretendo responder às seguintes questões: 1) Quem foi Guilherme Lamounier? ; 2) Como se define o cenário musical brasileiro daquela época? 3) O que levou Guilherme Lamounier a ser a ser deletado da memória da nossa música? E vamos embora... pra lá de Bora Bora.

A história de Guilherme Lamounier tem início em vinte e cinto de novembro de 1950, quando ele nasce. De início, ele morou no Canadá, onde fora alfabetizado na língua inglesa. Depois voltou pro Rio de Janeiro, sua cidade natal, e lá permaneceu até hoje, indo uma vez ou outra para os Estados Unidos. Sua família era quase toda composta por músicos renomados, o que faz com que o destino de Guilherme não fosse diferente. Sua estreia musical fora aos dezessete anos, quando este integrou um grupo chamado Todas as estrelas, onde atuou como vocalista. Foi em 1969, com o término da banda, que Guilherme Lamounier se lançou em carreiro solo e lançou o seu primeiro LP homônimo em 1970. Para resumir de vez a sua trajetória musical: Foram cinco álbuns e um EP, lançados até o ano de 1984, quando ele deixou de gravar devido às influencias musicais oitentistas e ao desgaste causado pela exploração midiática das suas músicas; mas isso não o impediu de continuar compondo. Prefiro me ater aqui à sua música, repleta de influências norte-americanas: uma mistura Folk-rock (ritmo do qual sou apaixonado), Blues, Funk-Soul e country, resultando numa música alegre, contagiante e nostálgica. Algumas de suas canções foram regravadas por artistas como Fábio Jr. (“Enrosca", também regravada doze anos depois por Sandy e Júnior, e “seu melhor amigo”) e Zizi Possi (“um toque de amor”, uma das minhas canções favoritas de Guilherme Lamounier). O mais interessante eram as suas letras: tratavam de ideais do movimento Hippie americano, porém, com uma conotação ingênua, acreditando num ideal puro de vida, baseado em naturalismo, no anti-materialismo, alienação e amor puro. Assim sendo, é muito comum ouvir temas como liberdade, desapego às coisas materiais, alucinações psicodélicas e culto a natureza sendo tratados de forma tão poética na música de Guilherme Lamounier. Haja charme e talento.

Por outro lado, tem o cenário da música brasileira da década de setenta, onde eu tento responder ao segundo quesito proposto no primeiro parágrafo. Os anos 70 foi o período de ascensão da MPB, gênero musical brasileiro que se caracterizava mais como um movimento de vanguarda, pois se propunha a criar uma música que fosse tipicamente brasleira. Assim sendo, é um gênero de difícil definição por englobar um infinidade de ritmos nacionais. Recebeu tal denominação (MPB) devido aos espaços de manifestação: os Festivais da música brasileira, que aconteciam no espaço Guarujá, em São Paulo, e divulgado pela extinta TV Excelsior. Os artistas mais aplaudidos nestes festivais formaram uma vanguarda musical que se manteve até hoje: são artistas como Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Outros sumiram do mapa, mas ainda assim são lembrados – como Geraldo Vandré, Sérgio Sampaio e Taiguara. A união que fortaleceu a notoriedade destes artistas se deveu ao clima de agitação causado por um período de ditadura militar no coração dos jovens artistas que ousaram contestar o regime através da música. Assim, as canções que formavam a vanguarda musical correspondiam com os valores da juventude daquela época, contestando o regime autoritário num misto de amor com rebeldia. Quem não se adequava a esses padrões ficava de fora da vanguarda e corria um sério risco de passar despercebido pela massa. Outros que também ficaram de fora poderiam ser notados na década seguinte, onde uma grande inversão de valores acontecia, e a música engajava daria espaço ao rock da babaquice dos anos 80. Lógico, também não devemos esquecer os artistas populares da música romântica, tais como Roberto Carlos, que serão eternamente lembrados pelo povão, que se identificava muito mais com eles do que com a tal MPB, que era o foco de adoração das classes médias universitárias. Os excluídos foram aqueles que se propuseram mais pra MPB do que para o romântico, mas sem abarcar o seu caráter nacionalista e nem tampouco se engjando na luta.

Eis que agora entramos na terceira questão: O que levou Guilherme Lamounier a ser a ser deletado da memória da nossa música? Bom, os dois últimos parágrafos servem de premissa para que se possa responder a esta pergunta. Se o cenário musical brasileiro dos anos setenta, elegia os seus ídolos por suas letras engajadas e por suas influencias musicais puramente regionais, então Guilherme Lamounier não poderia entrar nessa lista. Suas letras que falavam de amor ou de liberdade de uma forma ingênua parecem não haver despertado tanto o interesse de ouvintes mais sedentos por revolta contra o regime em vigor naquele momento. Isso sem falar nas suas influências musicais, quase todas americanas, de modo que eu até me arrisco a afirmar que ele foi um legítimo representante do Folk-Rock brasileiro, ritmo que praticamente não existiu. Quebrou a cara, se esbarrando no sentimento anti-americanista que imperava na conciência da classe média da época e que representavam um grande número de vozes e votos no Brasil.

Por outro lado, algumas fontes biográficas virtuais afirma que ele simplesmente abriu mão da indústria fonográfica por vontade própria, pois não se sentiu bem com os rumos que esta estava tomando, optando assim, por uma vida tranquila. Tudo bem se fosse só isso, mas porque do esquecimento? Digo e repito, ele é apenas uma referência para um mal que atingiu muitos artistas daquela época, assim como foi com Wilson Simonal – Talvez o caso mais famoso de ostracismo da música brasileira – que fez muito sucesso durante um tempo, até ser tachado de delator da ditadura militar, e consequentemente, ser rejeitado pela população. Eis que surge uma tese a se trabalhada em outros próximos textos: “as esquerdas brasileiras sempre foram dominantes no que diz respeito à criação artística e sua difusão através da mídia, ao contrário do que muitos pensam”. Essa tese já foi defendida pelo filósofo brasileiro Olavo de Carvalho, pelo grande jornalista e intelectual Paulo Francis e pelo saudoso cronista e escritor Nelson Rodrigues. Serei eu o próximo a defendê-la. Mas agora, prefiro ficar com Guilherme Lamounier, este compositor que ainda será redescoberto; afinal, o Brasil precisa da sua música.

Aqui vai os links da sua discografia para os interessados. Basta copiar e colar na barra de navegação:

Guilherme Lamounier 1970
http://www.4shared.com/file/102016509/331da959/Guilherme_Lamounier_1970.html

Guilherme Lamounier 1973
http://www.4shared.com/file/102141233/63c1616d/Guilherme_Lamounier_1973.html

Guilherme Lamounier 1978
http://www.4shared.com/file/102147532/34e218a2/Guilherme_Lamounier_1978.html

Compactos 1975 - 1984
http://www.4shared.com/file/102145092/62cffa48/Compactos_1975-1984.html

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A morte


Gosto muito dos meus leitores, mas hoje acordei com desejos sádicos e sadomasoquistas; por isso, vamos tratar de um tema pouco agradável: a morte. Aperta o cinto, Sophia. Este tema soa indigesto, pois consiste no único paradigma imutável de nossa existência: a certeza de que vamos morrer um dia. Cultivamos duas coisas em nossas vidas: as metas para se alcançar o status da felicidade e os pequenos prazeres, onde o tempo parece congelar e dar lugar ao eterno. Esta horta nos permite ignorar a cada instante o pensamento sobre a morte. Mas desde já, não vou ignorá-la, vou judiar um pouco de mim e de vocês. E ai, leitor? Como será a sua morte? Sabe aquela dor física insuportável, a maior que você vai sentir na sua vida, tanto que seu corpo não resistirá? Pois é, ela vai vir. Estarás preparado? Quanto será que vai doer? E a dor? Esta é a que mais nos apavora. Ao saber que vamos ter que passar por uma cirurgia, arrepia até o cabelo do dedo do pé, quando projetamos o sentimento para a dor que vamos sentir no processo.


Pois é, por maior que seja o nosso bem-estar físico e psíquico, a dor virá nos castigar, e tudo será somente uma questão de decisão do maior agente de toda a nossa existência: o tempo. Esse aí é o mais sacana de todos, pois ele tem o poder absoluto. Quando pensamos que temos poder de mudar o mundo, ignoramos uma força muito maior que do que nossas mentes e nossas mãos... o senhor tempo. O tempo é quem realmente domina; do contrário, tudo o que se iniciaria não necessariamente teria um fim. E a verdade é esta: tudo tem um fim. Nada vai ficar, nem as memórias culturais mais resistentes ao tempo, como a de Jesus Cristo, por exemplo. Será que Jesus vai ser esquecido um dia também? Com certeza, será. Sabe-se lá se até então o tempo encontrará outro adversário tão poderoso quanto Jesus Cristo.


Quando criança, eu dei os meus primeiros suspiros filosóficos ao perguntar ao meu tio “Faé” se todos iriam morrer, inclusive eu. A resposta afirmativa dele foi um choque de milhões de volts. Eu me lembro de que chorei demais nesse dia, e desde então, eu não vivo um dia sem pensar por alguns instantes que em algum momento eu vou morrer. Eu fantasiava até sobre uma tal “pílula da imortalidade” que algum cientista competente iria descobrir antes que eu morresse. Pena que isso não aconteceu até agora. Na verdade, hoje eu penso que não gostaria realmente de ser eterno; porém, seria ótimo que pudéssemos viver mais do que esse período de permanência que o agente tempo nos permite viver. 60, 70, 80, 90 e agora 100... é muito pouco. O ideal seria que pudéssemos viver até 500 anos – aí sim, eu acreditaria que nas palavras de uma pessoa idosa de quinhentos anos que diz estar enjoada de tanto viver.


Bom, peço desculpas a alguns leitores mais religiosos do que eu. Eu sou um cara de fé, acredito em verdades universais, penso muito sobre a ética, o bem e o mal, sobre a salvação da humanidade. Até na eternidade espiritual eu acredito. O problema é o tamanho da subjetividade que abarca a idéia de morte e todos os afetos que a envolve. Por falar nisso, preciso assistir ao filme “nosso lar”, baseado na obra homônima de Chico Xavier; acredito que vai me render muitas palavras para um próximo texto sobre este tema. Atrai-me bastante a ideia de que somos espíritos encarnados, e por isso, a vida se estende além deste corpo. O problema é que ‘apenas’ atrai. Quanto a acreditar é preciso que meu sonho mais existencial se realizasse: receber a visita de um espírito desencarnado. Ah, como seria bom, eu faria milhares de perguntas a ele.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Eleições 2010 - Apenas sobre os presidenciáveis



Cá estou eu novamente me aventurando pela madrugada em mais uma noite de insônia. Por coincidência, ontem foi dia de sambão no Morro da Conceição. Já estou começando a achar que a razão da minha insônia encontra-se nos energéticos que ando tomando misturados com uísque. Mas que bom que seja assim, pois a madrugada é realmente o melhor horário para escrever, tamanho é o grau de intimidade com si próprio que este horário proporciona ao escritor. Era assim com Clarisse Lispector. Mas vamos lá, vou aproveitar pra refletir um pouco sobre as eleições do ano de 2010 mesmo que tardiamente, faltando apenas uma semana para o sufrágio. Começo dizendo que percebo uma semelhança no quadro eleitoral desde a primeira eleição do Pesidente Lula. Como seria este quadro? É o quadro do marketing político. Lógico que isto não é recente, mas parafraseando o atual presidente, “nunca na história deste país” o marketing foi tão decisivo na opinião dos eleitores. É de fazer chorar, pois não há mais debates de idéias e propostas políticas. A candidata Dilma não está nem um pouco preocupada em comparecer ao debate político, pois sua campanha está subsidiada pela figura popular do presidente Lula. Aliás, o povo não sabe das propostas políticas de Dilma; há muitos quem duvidam que ela irá governar. Talvez ela seja apenas uma laranja para que o atual presidente exerça o seu terceiro mandado por debaixo dos panos.


Por outro lado, temos uma fraca oposição representada em primeiro lugar pelos candidatos a presidente José Serra e Marina Silva. O primeiro foi ministro da saúde no governo de Fernando Henrique Cardoso, e poderia usar isto para apontar as mentiras ditas pelo presidente Lula a respeito do atual cenário socioeconômico do país, onde ele atribui a si próprio a responsabilidade pelos principais avanços. As raízes da estabilidade econômica foram plantadas lá atrás no governo de FHC, e Lula soube usar isso muito bem, dando continuidade aos planos traçados pelo presidente anterior. Só que nada de inovador foi feito pelo atual presidente em seus dois mandatos, que ao final, acabou adotando uma postura conservadora e muitas vezes retrógada, quando este resolve voltar atrás dos ideais da democracia, atacando a liberdade de imprensa. O único diferencial apresentado por ele foi a ampliação dos programas sociais, coisa que só foi possível graças à estabilidade econômica. Desde o seu primeiro mandato, percebemos o país caminhando para uma Democracia popular, ou seja, uma forma bem menos evoluída de democracia, onde se conta apenas a opinião da maioria. O reflexo disto pode ser visto na própria corrida eleitoral, onde o presidente pratica descaradamente seu clientelismo, pedindo voto pros fulanos seus amigos enquanto acusa o outro candidato de “aético” porque este protestou contra a violação de sigilo fiscal da sua família. E o direito de protestar, não faz parte dos ideais da democracia? A lei não surge no aqui e agora porque uma maioria decidiu, ela está lá, registrada na constituição. Então porque tornar legítimo as palavras de um presidente? Porque a maioria está com ele?

E Dilma Rouseff? O que as pessoas que vão votar nela sabem sobre ela? Nada. E a culpa por isso é do povo? Não. Mas é o povo a responsabilidade pelo futuro do país. O que eu sei dela é que foi uma revolucionária nos tempos da ditadura, dessas que pegou em arma e executou o sequestro do embaixador americano ao lado do seu Grupo MR8. Fernando Gabeira também fez parte dessa turma, mas ao contrário dela, ele se arrepende e assume uma postura a favor da verdadeira democracia; coisa que não vemos na candidata Dilma – que recentemente quis altear a lei de anistia – e no atual presidente lula - que recentemente defendeu a postura do governo de cuba ao não ceder à greve de fome de um preso político. Me questiono seriamente sobre os valores democráticos dessas figuras. Só espero não ver a nossa estabilidade econômica abalada, pois as resoluções dos problemas mais graves do país como a saúde e a educação dependem disso. Marina Silva tem sido uma forte oponente na disputa eleitoral, mas com toda a sua pose, eu acho que ela se candidataria melhor à santa. E por falar nisso, a população parece que despertou de vez a simpatia por candidatos com histórias humildes, e virou até uma estratégia eleitoral usar a história do candidato mais do que a exposição das suas propostas. Ora essa, e Juscelino Kubitscheck, que ia pra escola descalço em sua cidade no interior de Minas Gerais e mesmo assim priorizou suas ideias iluministas em detrimento da história da sua vida? Por falar em história, quero aproveitar para parabenizar meu tio Rafael Brasil, a quem eu chamo carinhosamente de Faé, pelas postagens publicadas em seu blog. São realmente a minha referência em pensamento político, e a todos eu indico a sua leitura através deste endereço: http://rafaelbrasilfilho.blogspot.com/. Ele é realmente a maior cabeça pensante de toda aquela região do agreste meridional.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O pensamento luz da virada do novo século



Não consigo dormir, por isso resolvi escrever. Passei as últimas três semanas me preparando para uma prova de residência em saúde mental que aconteceu ontem. Terminando a prova, fui extravasar no morro da conceição e lá encontrei uma garota. Não sei se perdi o sono por causa dela ou por causa da prova. Deixa para lá, pois não é sobre isto que quero falar agora. Quero mesmo é falar de um filme que eu assisti pela terceira vez no sábado à noite em que antecedeu a prova – como sempre costumo fazer nas vésperas dos concursos públicos. O filme se chama “ponto de mutação” (“Mindwalk”, no original), é de 1990 e foi levemente adaptado do livro homônimo de Fritjot Capra. É realmente um filme para ver e rever várias vezes devido ao seu conteúdo filosófico; e é muito bom, pois cada vez que você o assiste, a compreensão sobre ele aumenta.



A sinopse é simples, pois se trata de um encontro casual entre um político deprimido, um poeta (amigo do político) e uma cientista norueguesa. O encontro acontece em um cenário belíssimo: um castelo medieval ilhado em algum lugar da França. A maré da ilha está baixa, e de repente, este cenário se torna palco para o mais brilhante diálogo já visto na história do cinema. Diálogo este que se estende por todo o filme, pois não se trata de um simples diálogo - dá até para personifica-lo e percebê-lo como o personagem central do filme. Trata-se de uma de uma verdadeira aula de filosofia, e o melhor, com uma linguagem bastante clara, ao alcance da compreensão dos letrados mais medíocres. Fica até difícil para mim, encontrar as palavras certas para descrever o fenômeno que ocorre nesse filme; mas vamos lá, não custa tentar: ... (pausa)... cada personagem traz uma perspectiva - uma visão de mundo – e um sentimento de acordo com a situação em que se encontram – o político fora derrotado na última eleição à presidência dos estados unidos devido ao seu projeto político que em pouco correspondia com os desejos dos eleitores norte-americanos; o poeta se mudara para França por não se adequar ao estilo de vida maniqueísta dos Estados Unidos; e a cientista entrara em recesso do seu projeto de pesquisa sobre raio laser por perceber que este estava sendo financiado para a construção de armas nucleares. A partir disto, cada um expõe o seu ponto de vista, e aquele que se sobressai é, sem dúvida, o da cientista, por se tratar de um pensamento inaugural do novo século. Chama-se Pensamento Sistêmico, também conhecido como “o novo paradigma da ciência”. Pretendo expô-lo de forma grosseira e resumida no próximo parágrafo, mas antes, deixem-me terminar de falar sobre o filme. É interessante você notar o processo de mudança tanto na perspectiva dos personagens quando no quadro emocional em que se encontravam antes da conversa começar. É uma grande lição de como uma conversa profunda pode mudar a vida das pessoas, mais do que muitos benzodiazepínicos.



Agora vamos ao pensamento sistêmico. Como falei no último parágrafo, trata-se de um novo paradigma, uma nova maneira de perceber e fazer. É também conhecido como o novo paradigma da ciência, e ciência considerando a maior amplitude do seu termo, englobando praticamente todas as áreas do conhecimento humano. Em se tratando de um novo paradigma, ele vêm para tomar o lugar do antigo, pois não há mais espaço para o antigo paradigma nos tempos de hoje, e a cientista está de plantão no filme para citar alguns exemplos catastróficos de aplicações do antigo paradigma na atualidade. O antigo paradigma foi inaugurado por René Descartes, e por isso foi também chamado de paradigma Cartesiano. Ele nos ensinou a estudar, e em seguida, tratar de todas as coisas da natureza e do homem como elementos isolados, desconsiderando a relação que existe entre eles. Como exemplo disto: Eu estou sentado na cadeira; eu sou uma coisa e a cadeira é outra, e por isso, terão de me separar da cadeira se quiserem estudar a cadeira e a mim. Isto era feito a fim de se alcançar a maior profundidade possível acerca daquele objeto. Até certo momento do século XX isso foi muito importante para as descobertas científicas; porém, enquanto epistemologia – uma forma de perceber e agir no mundo que está inscrito em toda a cultura – não se aplicava mais. Precisava-se de uma mudança que pudesse abranger as relações existente entre as coisas na sua epistemologia. Foi daí que surgiu o paradigma sistêmico, baseado na teoria geral dos sistemas. Essa teoria concebe um sistema como uma organização de elementos que está sempre em processo de mudança em sua estrutura. Além dos elementos comporem um sistema, cada um representa em si, pois está em constante inteação com outros sistemas. Isso dá uma idéia de movimento constante, por isso, não devemos entender o sistema como uma estrutura estática, mas sim como um pocesso. As coisas compõem sistemas e também são sistemas... os sistemas se articulam com outros sistemas mudando completamente a configuração inicial de todos os envolvidos. Uma família é um sistema, que está encontato com outros sistemas, como o colégio, o trabalho, o bairro, a sociedade. A árvore não é mais apenas uma árvore sozinha, ela está em contato com a floresta, com os animais que lá habitam, com o homem que lá pisa e com o vento que nela sopra. Assim são os sistemas, cadeias de relações que se encontram em constante movimento. É muita coisa para ser dita em uma postagem, por isso, recomendo a leitura do livro “pensamento sistêmico: O novo paradigma da ciência” de Maria José Esteves de Vasconcellos, ou que assistam ao filme “ponto de mutação”. Aos mais ousados, também seria interessante a leitura de livro de Ponto de mutação Fitjot Capra... Esse eu não li ainda, mas já estou pretendendo.