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sábado, 2 de julho de 2011

Qualidade de vida e um grão de arroz do pensamento oriental










Só mesmo uma noite de insônia pra me fazer tocar pra frente esse blog. Me sinto bem quando escrevo, porém, não tenho encontrado tanta disposição para tal. Não chamo de preguiça, mas sim de resistência; pode soar redundante, mas creio que não, devido à denotação do segundo termo que se refere a algo que tende a persistir com o tempo. Assim sendo, escrever passa a ser um exercício não só da mente mas também do espírito, que luta contra a ameaça de ter seu movimento congelado no tempo e de presentear o corpo com a sensação de morto enquanto vivo. Mas já que estou com insônia, é sobre qualidade de vida que irei falar.






Já tendo todos os leitores – não só meus, mas de todas as mídias possíveis - uma noção breve sobre qualidade de vida, sinto que podemos começar relacionando o tema com a busca pelo prazer. Que tipo de prazer você costuma cultivar no seu dia a dia? Pequenos prazeres? Bater um prato de arroz com feijão e bife quando se está verdadeiramente com fome? Ouvir música de um repertório preparado por você mesmo e gravado no aparelho celular? Assistir novela, depois um jornal, depois outra novela e depois um filme? Navegar na internet em busca de interesses próprios enquanto conversa com amigos, colegas, conhecidos e paqueras no chat? Transar com a(o) parceira(o)? Fumar cigarros? Fumar um cigarro depois de transar com a(o) parceira(o)? Êh.... vida besta e boa, que de tão boa, não merece a inveja de ninguém. Será isso mesmo? Eis que entra em cena um tema que, uma vez personificado em forma de ator coadjuvante para o enredo deste texto, dispensaria apresentações: qualidade de vida. É uma palavra chave constante nos artigos científicos das ciências humanas e da saúde ocidentais, que buscam instigar a sociedade a reagir contra os danos causados pela modernidade em suas vidas. Politicamente, é uma palavra de ordem; e midiaticamente, é um termo vulgar que se traduz na busca individual pela saúde e bem-estar.Mas por que entra em cena logo este tema? Porque pensar em qualidade de vida e se entregar à busca dos prazeres que a sociedade nos ensinou a olhar com tal não fazem parte de uma mesma proposta. Na verdade, até faria, uma vez que a qualidade de vida envolve, também, o nosso bem estar interior; porém, as consequencias trágicas que a busca por estes prazeres anunciam faz com que nos comportemos diantes dele fazendo jus à teoria do nosso querido Leon Festinger: A teoria das Dissonâncias Cognitivas. Mas não vou falar sobre esta teoria agora... saibam apenas que ela diz respeito a uma situação de extrema oposição entre pensamento e comportamento.






Recentemente, caiu em minhas mãos um livro que trata exaustivamente sobre este tema. Trata-se de uma organização de artigos sobre a promoção da qualidade de vida em crianças e adolescentes com situações de saúde física e mental comprometidas: portadoras de Autismo, Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, Vulnerabilidade Social, Pais separados, Violência na família, e outras mais. Cada artigo apresenta uma metodologia específica para a promoção da qualidade de vida, o que implica em não alterar a idéia central do que vem a ser qualidade de vida: A adoção de perspectiva, por parte dos sujeitos, sobre o seu bem-estar biopsicossocial. Significa algo mais do que simplesmente olhar para a qualidade da sua vida como um valor primordial; mais do que isso, implica o alcance de uma consciência corporal da sua saúde e bem-estar de modo que ela não exista somente na ideia, mas que faça parte do seu modo de vida por completo. Parece algo simples quando expresso com entonação poética, o que não é o caso da promoção da qualidade de vida. Promover a danada significa criar meios para o desenvolvimento da autonomia do sujeito, coisa que muita gente sã não consegue em toda a sua vida. Significa assumir a inteira responsabilidade pelo seu destino, pela sua história que, apesar das circunstancias ambientais, só pode ser escrita por você. É o objetivo a ser alcançado nos trabalhos de psicólogos, pedagogos, assistentes sociais, terapeutas de todas as linhas. É o que nos emprega, o que nos sustenta, e nenhum lugar melhor para abraçar profissionalmente a esta demanda do que todo o nosso mundo ocidental.






Me refiro ao mundo ocidental por ser próprio dele a idéia de que somos vítimas de um mundo globalizado que oprime a nossa singularidade. Ainda estamos presos ao paradigma cartesiano que muito contribuiu para isto, e que nos faz perceber o mundo e a nós mesmos como coisas distantes umas das outras. Para pensamento deste tipo, não somos nada diante da grandeza do mundo, e portanto, nossa vida não passa de um peido de Deus. Já os orientais, com a sua belíssima filosofia milenar, vêem a natureza e o homem como entidades intimamente relacionadas. O taoísmo fala que a natureza possui um fluxo natural igualmente a nós, mas que não o percebemos devido um certo desapego com nós mesmos. Nem me adianto em falar muito sobre isso, pois o maior mestre do Tao, por exemplo, diz que o Tao não pode ser explicado, apenas sentido por cada um de nós. É uma busca interior, que só depende de si mesmo e por si mesmo. Cabe-nos pensar: "até que ponto conseguimos praticar isto?" A meu ver, este caminho é a chave para se alcançar a qualidade de vida, e o trabalho dos profissionais os quais me referi diz respeito a criar condições para que o sujeito possa se desenvolver interiormente. Não é a toa que as terapias holísticas estão em alta.... elas trazem a bagagem do pensamento oriental, o que para muitos significa uma luz num fim do túnel. Só devemos, também, ter cuidado para não vulgarizar o conhecimento trazido por estas práticas que, apesar de soarem como novidades para nossos olhos e ouvidos, são na verdade a origem do equilíbrio mental e espiritual de toda uma sociedade.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Primavera no mundo árabe






O que acontece quando você pretende seguir em frente em um projeto de blog quando uma notícia impactante toma conta dos pensamentos? Provavelmente, muitas notas e textos deveriam emergir sucessivamente da massa cinzenta. Mas e quando não é esta a proposta do projeto, quando a intenção de querer falar de tudo um pouco se choca com acontecimentos múltiplos? É bem certo que a coisa desande. É o que tem acontecido comigo, quando me dei de cara com os acontecimentos do mundo árabe, e sem conseguir ordená-los, acabo por atrasar outros textos que julgo importantes, mas cujos desenvolvimentos esbarram na metodologia que impede que algo inacabado dê espaço para novas produções. O jeito encontrado para o fechamento de tal Gestalt é não resumir os fatos, e sim, expor a minha visão pessoal a respeito deles, de uma maneira clara e objetiva.




A mais de uma semana que notícias impactantes não param de surgir sucessivamente. São realmente fatos de grande relevância para a cultura ocidental que, quando se apresentam aos nossos olhos e ouvidos (seja através da TV, rádio ou internet), nos posicionamos diante do aparelho como espectadores maravilhados e excitados com o poder da transmissão. De todos os acontecimentos que tenho testemunhado, escolhi um para tratar especificamente neste post: A Primavera Árabe. Trata-se de um fenômeno que está ocorrendo no oriente médio (que é vulgarmente chamado de mundo árabe devido a cultura islâmica que existe na região), mas que se aplica de forma apenas semelhante, também, ao continente africano. Tal fenômeno diz respeito à derrubada de Ditaduras opressoras da população, bem como a consequente instauração da democracia naqueles países. Teve início com a Queda de Zine El Abidine Ben Ali na Tunísia por parte de levantes populacionais, seguido da queda do presidente Mubarak, no Egito pelo mesmo processo, e protestos recorrentes na Síria, Líbia e outros países do oriente médio; todos provocados pela população de cada um destes países, afim de acabar com seus governos de longas datas.




O fator mais importante é a produção de subjetividade em grande escala que está se processando no lado de lá – fenômeno que não exclui as especificidades de cada país do continente. Algo semelhante vem também acontecendo na África, mas não vou precisar focar, já que entendendo um dá para entender o outro. O processo ao qual me refiro é o da instauração da democracia em países de ambos os continentes, em substituição a governos totalitaristas. De democracia temos conhecimento pleno desde filósofos clássicos como Aristóteles até o tratado das Nações Unidas do Direito da democracia: “Todo o poder emana do povo a ele está assegurada a autodeterminação dos povos em suas esferas políticas, econômicas e culturais”, assim está escrito no documento da ONU. Associando esta definição aos fatos rapidamente relatados no parágrafo anterior, percebe-se que a produção de subjetividade no mundo árabe tem a democracia como um valor a ser alcançado na política, um ideal inédito, um divisor de águas que, mais do que representante de algo bom, representa algo necessário para a política internacional que visa unir os povos, instaurar a paz no mundo e superar as desigualdades sociais.




É importante destacar o que muitos jornais já destacaram: a importância da internet nesse processo. É de praxe saber que a internet permite que a informação se torne acessível para todo um povo governado pela censura; mas, mais importante ainda é saber que, com o seu avanço as produções de subjetividade acontecem muito mais rápido. O que antes era visto como um processo quinquenal, hoje pode ser acompanhado no decorrer de uma década. Tal processo se assemelha à mudança comportamental dos jovens, que se inserem nos meios sociais mais rápido, e portanto, mais rápido alcançam mais rápido se rebelam contra um sistema familiar, processo que mais tarde apresenta, também o seu equívoco, no que tarda um jovem rebelde a sair da casa dos pais. Nesse sentido, esperamos que seja diferente no mundo árabe, que eles realmente encontrem a sua primavera, pois o mundo anseia por isso.




E por falar em ansiar, nimguém menos que os Estados Unidos para delegar tal sentimento. A participação do exército americano na implantação da democracia naqueles países não tem nada de imperialista como muitos idiotas costumavam pensar. É algo necessário para a economia, que hoje uma ciência dotada de pensamento sistêmico, reconhece a sua dimensão global, onde as partes de cada lugar geram turbulência em todo o sistema, que está em constante processo de mudança. Isso significa que, o interesse econômico dos estados unidos neste processo não diz respeito somente a eles, mas a todos os outros países do mundo inteiro. Se eles querem comprar e vender petróleo, nós também sentimos os efeitos, no preço da gasolino. Ora, é muito fácil falar mal dos estados unidos em nossa cultura anti-americanista classe média, mas e quando o preço da gasolina sobe, será que gostamos?




Por último, eis que muito satisfatoriamente termino esta breve insuniação sobre algo muito grande. É da democracia que falamos e destacamos como tema central. Da maneira como ela se apresenta, pode não ser a maneira ideal, mas a sua idéia é. Até agora, não vi na história da humanidade, outra forma mais adequada de governo. Já se foi o tempo das ditaduras, sejam elas socialistas (como foi o caso da ex união- soviética, dos países do pacto de Varsóvia, da américa latina, coreia do norte – que infelizmente ainda resiste- e china), sejam eles teocráticas (como o caso do mundo árabe)... e Adeus século XX.

domingo, 13 de março de 2011

Elogio ao amor


Carnaval passou, e nem deixou tanta saudade. Também, já virou rotina apesar do espaço de tempo que separa as suas sessões. Aqui, no Brasil, muitos costumam pensar que o ano só começa após o carnaval. A verdade é que a vida continua depois dele, pois a sensação de pôr os pés no chão depois do carnaval é de que tudo não passou de um sonho. Quem vive o carnaval, costuma, inclusive, sonhar com ele algumas poucas vezes durante o ano como uma manifestação inconsciente de amor ao seu povo e esperança de encontrar um amor para si. Alguns conseguem encontrar o seu amor, e por isso, fazem uma relação de continuidade entre a realidade e o sonho. Os que não conseguem, costumam encarar a volta aos pés no chão com naturalidade, escondendo a frustração de estar vivendo uma vida insignificante. Lógico que somos humanos, e por isso, temos grandes desejos de realização que não se adequam à real dimensão do mundo. Sempre estamos a procurar algo de melhor para as nossas vidas, e o fato de amar alguém auxilia energeticamente nessa busca. Somos demasiadamente humanos, e por isso, devemos investir nossas energias amorosas em alguém, é só assim, poderemos expelir todo o nosso potencial criativo na busca do nosso algo a mais. Não sei por que, mas tenho como exemplo disso o Ariano Suassuna: Toda a sua vida dedicada à literatura e à cultura popular, mas sempre com uma companheira do lado, a sua primeira namorada desde os 13 anos de idade. Não precisou procurar mais ninguém, e por isso, pôde investir toda aquela energia - que poderia estar sendo desperdiçada na procura por um amor ideal - na literatura.


Comecei falando sobre o carnaval, mas lógico que é sobre o amor que eu gostaria de falar. Faz parte de mim, pois venho vivenciando algumas frustrações amorosas ultimamente, e consequentemente, um estado de carência. Sei que é tudo minha culpa, e sei o quanto tenho que melhorar. Também não vivo nenhuma grande fatalidade, até porque, enquanto jovem da classe média, carrego na memória a frase de Gonzaguinha como uma ridícula manifestação de insatisfação e esperança: “eu sei, que a vida poderia ser bem melhor e será”. Mas uma coisa é certa, não posso ignorar isso, pois tá diretamente relacionada com meu crescimento. Amar alguém é o mínimo que devemos ter; faz parte não de um simples desejo, mas de uma necessidade básica secundária: o sexo. Alguns leitores mais hipocritamente moralistas (acho que não é o caso dos meus) poderia encarar essa última afirmação como vulgar, mas tá muito longe disso. Já devo ter mencionado em outros posts que o sexo tá entre necessidades básicas do ser humano. Também devo ter mencionado que necessidades básicas estão relacionadas com o instinto, e consequentemente, com a sobrevivência do ser humano, e que nesse sentido o sexo se caracteriza como um instinto secundário, pois está relacionado com a sobrevivência da espécie humana. Lógico que essa afirmação biológica de alguns séculos anteriores ignora as descobertas científicas atuais como a inseminação artificial, bem como a diversidade sexual. Quero aproveitar e citar o psicólogo americano Albert Ellis, criador da terapia Racional-Emotiva. Diz ele: - “Costumamos pensar que ‘preciso encontrar com minha amiga’, ‘preciso fazer meu trabalho de faculdade’, ‘preciso fazer isso ou aquilo’. Tá tudo e errado, pois só precisamos de três coisas na vida: comer, dormir e fazer sexo. O resto são apenas desejos”. Acho também que já o citei antes, mas o que quero afirmar com tudo isso, é que todos precisam amar, e amar não pode ser com qualquer um, não nos tempos de hoje; precisamos encontrar o nosso amor verdadeiro. É uma sina, e não devemos ignorá-la.


Além, dessa concepção biológica, que para alguns leitores possa soar tão maniqueísta, há também outra que eu gosto muito: a existencial. Amar alguém é reconhecer-se diante do olhar do outro. Existência se dá na relação, no outro que olha pra mim e diz: “você é...”. E mesmo que ele não diga nada, basta olhar no sei sorriso, no seu toque, sentir o seu abraço, captar o calor que ele transmite. É saber que, estando aqui, estou sendo pensado por alguém, e uma vez sendo pensado, estou ensinando algo para esta pessoa... aí, citando um filósofo que gosto bastante, o Martin Buber: “minha mensagem está sendo captada por alguém assim como eu capto as mensagens das pessoas tal qual as informações midiáticas que me são transmitidas”. É esse o amor que faz uma criança saudável, que se reconhece no olhar e no toque da mãe, segundo Donald D. Winnicot. É esse o amor que um dia se expandirá para os mais diversos espaços da sociedade, deixando as minhas impressões digitais nas pessoas que comigo se encontrarem. E quando um casal tem um filho? É quando a extensão da existência alcança o seu maior alcance, pois o filho representa uma continuidade da nossa existência, e a marca que antes era nossa, agora está nele, que passará para outros, para depois passar para os filhos dele, e assim sucessivamente. E quando as duas concepções anteriormente apresentadas se unem numa só: O amor com sexo. O sexo como uma necessidade, e que portanto está relacionada ao prazer, junto com o amor que expande a nossa existência. É, por assim dizer, o amor ideal, que tantos buscamos em nossas vidas, e que talvez nunca encontremos o que faz da nossa existência, algo bem menor. Mas fora estas concepções, o amor ainda possui outras. Só para citar exemplos, temos a cristã, onde podemos encontrar o amor fraterno, aquele que fez com que Jesus morresse por nós. E várias outras formas de amor também existem, e para isso temos a teoria de Alan John Lee intitulada “Estilos de amor”. Recomendo aos interessados que procurem na internet, pois já tá na hora de encerrar o texto, considerando que prezo pelo seu tamanho acessível. Termino então com uma frase que não concordo tanto, mas que se aplica a este momento: O amor é tudo, e sexo é mais ainda.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Carnaval 2011: Diversidade cultural ?


Vai começar mais um carnaval pernambucano. Mais uma manifestação de alegria, sensualidade, musicalidade e excentricidade. Época em que Colombina pede licença a Alecrim para ir atrás de Pierrô. E essa terra de Manuel Bandeira é que o bicho pega. Os clubes e as ruas se enchem de pessoas fantasiadas ou não, de grupos dos mais variados estilos musicais daqui (e de fora também, ponto que vou destacar logo mais), bonecos gigantes, dançarinos de frevo, barracas e isopores vendendo bebida e comida. O antigo e o novo se encontram, o rico e o pobre também. Sejam misturados na rua, ou segregados em seus clubes carnavalescos. Uma coisa é certa: o Carnaval é pra todos. Haja democracia, e justa por sinal; pois a vida é tão dura e todos devem ter o mesmo direito de esquecer problemas durante quatro dias. Há muita coisa a ser dita sobre o carnaval, principalmente por mim, que venho curtindo esta brincadeira há doze anos no mesmo endereço: Olinda e Recife antigo. Mas é sobre outra coisa que eu queria tratar aqui; tem haver com o carnaval, mas é um triste fenômeno que de tão recorrente, parece que é sempre novo: a Desvalorização da nossa cultura.

Vinha eu percorrendo o caminho de volta para minha depois de deixar minha irmã mais nova, Miriam, em seu trabalho, quando – parado no engarrafamento da avenida Agamenon Magalhães – ligo o rádio na minha estação predileta, a Universitária FM 99.9, para ouvir o programa comandado e apresentado pelo compositor de frevo, Hugo Martins, e intitulado: Carnaval 2011. Programa em que, assim como na emissora de um modo geral, a cultura pernambucana é defendida a todo o instante. Nesse dia, Hugo havia recebido um convidado especial: Geraldo Maia - cantor natural de Pernambuco, que procura tanto reinventar a nossa música, sem perder de vista as nossas raízes, como também homenageia cantores do passado que foram marcantes em sua influência musical. Pois bem; só que nesse dia, Geraldo Maia encontrava-se indignado com o tratamento oferecido pelos nossos governantes à nossa cultura popular, e expressou toda a sua indignação através de ataques severos e emocionados, e que mexeu tanto com as minhas emoções quanto com as minhas opiniões. O fato: Geraldo Maia não teve o seu projeto de show para o carnaval aprovado pela Fundarpe (Fundação do patrimônio histórico e artístico de Pernambuco) em nenhum dos espaços, em nenhuma cidade do estado inteiro. Foi triste para o carnaval de Pernambuco; não somente porque foi ele, Geraldo Maia, quem ficou de fora, mas assim como ele, muitos artistas que estão batalhando para terem o seu trabalho reconhecido, também ficaram. No decorrer da sua fala, Geraldo falou que colegas alguns dele, hoje reconhecidos e consagrados, tiveram o seus projetos aprovados e ganharam até quinze espaços de apresentação, enquanto ele ficou sem nenhum. Ele não citou nomes, mas quem conhece o carnaval daqui, deve saber bem quem são. A questão é: o que será da música pernambucana e do seu carnaval nos próximos anos se não permitirmos que novos artistas possam mostrar o seu talento? O que vai ser quando esse que estão aí consagrados morrerem? É preciso dinamizar mais a aparição destes artistas, permitir que saiam da toca, valorizar o que é produzido na nossa terra. Por falar em valorização, esse é o tema central. Tô contigo, Geraldo Maia.

Acompanhando outras edições do programa de Hugo, sempre com convidados indignados, é que percebemos o estado em que se encontra a valorização da nossa cultura. Só pra citar alguns exemplos: 1)O presidente do bloco “Virgens do Bairro novo” de Olinda proibiu orquestras de frevo de desfilarem no bloco. Frevo é a música mais característica do nosso carnaval, e é bem sofisticado, com metais e tambores soando alto. Pena que aos olhos de uns mais jovens pareça música de velho. 2) O prefeito do Recife, João da Costa (também conhecido como João da Bosta) juntou a festa do rei momo com a eleição do rei e rainha do carnaval, do baile municipal. Diga-se de passagem que a festa do rei momo é uma tradição. O que me deixou feliz foi a resistência de algumas pessoas que conseguiram realizar a festa do rei momo sem a prefeitura. Com isso, não quero dizer que todas as pessoas são imbecis e ignorantes com a sua cultura, nem que não devemos trazer grupos de fora para cá; mas que o carnaval deveria priorizar a nossa cultura, pois o grande problema dela é simplesmente um problema de valorização. Hugo Martins elogia bastante o baiano, porque sabe valorizar a sua cultura, a sua música. No carnaval, eles só tocam música baiana. E viva o povo baiano, tô com você hugo!! O baiano não invade lugar nenhum, nós é que mandamos chamar o baiano. Garanto que se não fosse pela valorização, o Samba-Reagae tocado naqueles trios-elétricos da Bahia, seria uma música tão chata de se ouvir quanto é o frevo aqui para algumas pessoas.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Fim do ano passado, Tio Benito e Deus na visão de Henri Bergson




Feliz ano novo atrasado a todos os meus leitores. Obrigado pelo incentivo tia Mércia, Sérgio, Breno e Sophia. Espero que este ano de 2011 possa ser bastante construtivo para todos nós; e que o sucesso não parta somente de acasos ou milagres, mas tenham suas raízes nos nossos esforços individuais e coletivos. Que estes esforços possam ser bem reconhecidos pela luz de nossas consciências. Tive um final de ano um tanto abalado devido a morte do meu tio Benito; o irmão mais querido do meu pai e um sujeito admirado por todos nós, especialmente por mim, que tive um relacionamento distante devido à distância física que nos separava. Ele morava em Macau, no rio Grande do Norte, enquanto sua família mora, em sua maior parte, aqui em Recife. Ele foi um grande professor de ciências sociais (enquanto tal, foi fundador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte em Macau) um grande poeta (teve alguns livros publicados) um grande político (não me lembro dele ter ocupado algum cargo público, mas sempre participou ativamente da política de Macau)... Enfim, um grande homem e um grande fidalgo. Foi, talvez, a pessoa mais importante para a história de Macau nos últimos 30 anos, e nas palavras do seu amigo, padre Murilo: Benito estava a trezentos anos à frente de nós, e só daqui a trezentos anos é que o povo de Macau irá entender as palavras de Benito Barros. E além de Tio Benito, ainda enfrentei um trabalho de apoio psicológico às famílias dos trabalhadores da transposição do Rio São Francisco que foram mortos e feridos devido a uma dinamite que explodiu num momento errado: ocasião em que eles se encontravam a uma distancia inferior a quinhentos metros dá área da explosão. Acompanhei o sepultamento dos mortos e a atenção hospitalar aos feridos, tudo em clima de muito sofrimento e tensão por parte dos familiares. A parte boa foi que esse trabalho me redeu três mil e quinhentos reais ao todo, somando as horas de trabalho (39 horas). Mesmo assim, ainda me senti mal, por pensar que tal bolada só foi possível graças à desgraça dos outros. Mas a vida segue sempre esse caminho cíclico dos que morrem e dos que nascem... e não haverá Deus nem ciência para reverter isso daí. O que eu peço a Deus nessas horas, é que a eternidade seja um bom lugar para todas as almas, além das boas, claro, como a do meu tio Benito. Nas palavras do meu tio Faé: vai que Deus estava precisando dele lá no céu, uma pessoa competente para ocupar o cargo de secretário do universo.

Mas é sobre Deus que eu queria tratar neste texto já que toda essa experiência vivida por mim nos últimos dias de 2010 é, em síntese, uma experiência de vinculação da matéria com o espírito, de sintonia do homem com o sagrado. Na verdade, só vou tratar de um pequeno aspecto dele, pois o todo-poderoso é talvez o mais amplo, mais complexo e mais profundo de todos os assuntos. São muitas linhas de teologia que vêm sendo traçadas até hoje com o intuito de estuda-lo, e portanto, não será um textinho mixuruca de blog que irá abordá-lo em sua totalidade. O contexto que escolho para expor uma visão particular (mas nem tanto, por ser fundamentada filosoficamente) é a da diversidade religiosa que habita todos os habitats humanos do planeta terra. O cenário dessa diversidade mais se assemelha a um mercado de religiões, todos a disposição do homem para que este escolha qual o Deus que ele mais se identifica. Em cada uma delas, Deus possui um nome: Deus, Alá, Buda, Krishina, Olorum ... e outros que não me vêm à mente no momento. Cada um deles é dotado de um sistema de verdades religiosas, valores morais e éticos e histórias dotadas de provérbios à respeito da origem de tudo e de todos. Antigamente, cada religião possuía o seu território de dominação, e a história da população deste território se confundia com a história desta religião. A expansão de uma religião além do seu território ou mesmo a invasão de um território alheio por parte de outra religião muitas vezes resultava em conflitos banhados de sangue. O advento da era moderna, juntamente com a progresso em escala global para uma economia capitalística neoliberal de livre intervenção permitiu com que esses conflitos fossem amenizados em prol de uma abertura, também para as religiões. É uma pena que esta abertura ainda não foi possível para algumas regiões como a do estado da Palestina, que nos dias de hoje, ainda vivencia conflitos religiosos entre judeus e árabes. E apesar da existência ou não de conflitos violentos, o centro da discussão entre os religiosos das diferentes religiões nunca deixa de ser o mesmo: qual Deus é o mais verdadeiro? O meu ou o seu?

Sobre essa questão, eu tenho uma idéia que não é propriamente minha, pois é embasada na visão de um grande filósofo francês: Henri Bergson. Para ele, Deus é o Ser Criador, que criou o mundo, história essa que ouvimos falar antes. A diferença está no plano em que este deus se encontra: Dentro de nós, de modo que podemos alcança-lo através da nossa transcendência, da nossa evolução espiritual, emocional e cognitiva. Diz ele ainda que a poder da criação foi designado também ao homem, e que este pode se aproximar da condição divina, de Deus, quando este exerce o poder criador de forma plena. E vamos além...Criar, na visão de Bergson não significa inventar coisas, descobrir através da ciência; não, é de outra criação que ele trata. É da criação humana que ele trata, aquela que se dá na relação do eu com os outros, na inserção do homem na sociedade. Criar através de uma nova ou antiga relação é permitir o acontecimento da aprendizagem no campo desta; é me fazer presente na vida de uma pessoa mesmo quando estou ausente dela, pois ela carrega o meu modo de ser na construção de sua identidade, e quando estamos juntos, estamos de tal forma que nosso poder criador encontra-se em grau elevadíssimo. Ao estender o seu pensamento sobre o fenômeno criador, Bergson destaca alguns conceitos que são chaves nele. Um deles é a “Intuição”. A intuição se contrapõe às instituições, que são estruturas rígidas localizadas na sociedade, que barram o processo criativo, paralisando o nosso corpo perante o peso as estruturas que estão fora de nós. É na intuição que a vida se movimenta, é nela que reconhecemos o nosso poder perante as instituições e a criatividade possa acontecer na minha relação com estas instituições. Assim sendo, qual religião possui o Deus mais verdadeiro? Eu diria que todas possuem um Deus verdadeiro, pois a verdade está aonde a criação também está. Não adianta eu estar numa religião aonde a criação não aconteça, aonde eu não consiga me ver naquela verdade, de modo que a minha vida não muda e nem eu me torne um ser mais criativo na minha relação com as outras pessoas. Ou seja, a verdade religiosa é um processo singular, pois diz respeito ao despertar do meu processo criador no contato com essa ou aquela religião. É importante destacar também na visão de Bergson, o que ele pensa sobre o Amor. É através do amor que a criação da vida acontece, é a condição para isto; o contrário dele é o contrário da criação; ou seja, a destruição. Se eu me encontro numa religião aonde a verdade dela não faz bem nem a mim e nem às pessoas que estão perto de mim, então não há criação, pois não há aprendizagem, reflexão, liberdade, intuição. Todo como exemplo alguns grupos radicais da religião mulçumana, que atacam os judeus na palestina sob a crença de que é o caminho de Alá para implantar a paz no mundo e varrer o mal da terra. Bem, isso só se consegue debaixo de sangue. Agora, percebam o seguinte: eu não estou falando da religião mulçumana em si, pois esta enquanto religião, ele está a favor da criação entre os seus seguidores. Me refiro aos grupos radicais, bem como outros que existem em outras religiões, que não favorecem o processo criador e terminam por criar mais instituições ao nosso redor. Enquanto um cara religioso, porém, sem religião definida,venho procurando conhecer os dizeres de diversas religiões. Me considero católico apostólico romano, religião sob a qual fui concebido socialmente; mas a minha visão de Deus é a que Henri Bergson me ensinou. Deus é Henri Bergson.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Guilherme Lamounier e um pouco do cenário musical brasilero da década de 70



Falar de Guilherme Lamounier é fazer uma viagem à cena musical brasileira da década de setenta, bem como se aventurar teoricamente em busca de entender os motivos que fez com que um artista tão bom como ele fosse completamente esquecido. Tomo-o como referência porque o descobri recentemente e venho escutando ele bastante no toca-CD do meu carro; mas deve-se levar em conta que o mal do ostracismo recaiu sobre uma centena de artistas daquela época. Ao final deste texto, pretendo responder às seguintes questões: 1) Quem foi Guilherme Lamounier? ; 2) Como se define o cenário musical brasileiro daquela época? 3) O que levou Guilherme Lamounier a ser a ser deletado da memória da nossa música? E vamos embora... pra lá de Bora Bora.

A história de Guilherme Lamounier tem início em vinte e cinto de novembro de 1950, quando ele nasce. De início, ele morou no Canadá, onde fora alfabetizado na língua inglesa. Depois voltou pro Rio de Janeiro, sua cidade natal, e lá permaneceu até hoje, indo uma vez ou outra para os Estados Unidos. Sua família era quase toda composta por músicos renomados, o que faz com que o destino de Guilherme não fosse diferente. Sua estreia musical fora aos dezessete anos, quando este integrou um grupo chamado Todas as estrelas, onde atuou como vocalista. Foi em 1969, com o término da banda, que Guilherme Lamounier se lançou em carreiro solo e lançou o seu primeiro LP homônimo em 1970. Para resumir de vez a sua trajetória musical: Foram cinco álbuns e um EP, lançados até o ano de 1984, quando ele deixou de gravar devido às influencias musicais oitentistas e ao desgaste causado pela exploração midiática das suas músicas; mas isso não o impediu de continuar compondo. Prefiro me ater aqui à sua música, repleta de influências norte-americanas: uma mistura Folk-rock (ritmo do qual sou apaixonado), Blues, Funk-Soul e country, resultando numa música alegre, contagiante e nostálgica. Algumas de suas canções foram regravadas por artistas como Fábio Jr. (“Enrosca", também regravada doze anos depois por Sandy e Júnior, e “seu melhor amigo”) e Zizi Possi (“um toque de amor”, uma das minhas canções favoritas de Guilherme Lamounier). O mais interessante eram as suas letras: tratavam de ideais do movimento Hippie americano, porém, com uma conotação ingênua, acreditando num ideal puro de vida, baseado em naturalismo, no anti-materialismo, alienação e amor puro. Assim sendo, é muito comum ouvir temas como liberdade, desapego às coisas materiais, alucinações psicodélicas e culto a natureza sendo tratados de forma tão poética na música de Guilherme Lamounier. Haja charme e talento.

Por outro lado, tem o cenário da música brasileira da década de setenta, onde eu tento responder ao segundo quesito proposto no primeiro parágrafo. Os anos 70 foi o período de ascensão da MPB, gênero musical brasileiro que se caracterizava mais como um movimento de vanguarda, pois se propunha a criar uma música que fosse tipicamente brasleira. Assim sendo, é um gênero de difícil definição por englobar um infinidade de ritmos nacionais. Recebeu tal denominação (MPB) devido aos espaços de manifestação: os Festivais da música brasileira, que aconteciam no espaço Guarujá, em São Paulo, e divulgado pela extinta TV Excelsior. Os artistas mais aplaudidos nestes festivais formaram uma vanguarda musical que se manteve até hoje: são artistas como Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Outros sumiram do mapa, mas ainda assim são lembrados – como Geraldo Vandré, Sérgio Sampaio e Taiguara. A união que fortaleceu a notoriedade destes artistas se deveu ao clima de agitação causado por um período de ditadura militar no coração dos jovens artistas que ousaram contestar o regime através da música. Assim, as canções que formavam a vanguarda musical correspondiam com os valores da juventude daquela época, contestando o regime autoritário num misto de amor com rebeldia. Quem não se adequava a esses padrões ficava de fora da vanguarda e corria um sério risco de passar despercebido pela massa. Outros que também ficaram de fora poderiam ser notados na década seguinte, onde uma grande inversão de valores acontecia, e a música engajava daria espaço ao rock da babaquice dos anos 80. Lógico, também não devemos esquecer os artistas populares da música romântica, tais como Roberto Carlos, que serão eternamente lembrados pelo povão, que se identificava muito mais com eles do que com a tal MPB, que era o foco de adoração das classes médias universitárias. Os excluídos foram aqueles que se propuseram mais pra MPB do que para o romântico, mas sem abarcar o seu caráter nacionalista e nem tampouco se engjando na luta.

Eis que agora entramos na terceira questão: O que levou Guilherme Lamounier a ser a ser deletado da memória da nossa música? Bom, os dois últimos parágrafos servem de premissa para que se possa responder a esta pergunta. Se o cenário musical brasileiro dos anos setenta, elegia os seus ídolos por suas letras engajadas e por suas influencias musicais puramente regionais, então Guilherme Lamounier não poderia entrar nessa lista. Suas letras que falavam de amor ou de liberdade de uma forma ingênua parecem não haver despertado tanto o interesse de ouvintes mais sedentos por revolta contra o regime em vigor naquele momento. Isso sem falar nas suas influências musicais, quase todas americanas, de modo que eu até me arrisco a afirmar que ele foi um legítimo representante do Folk-Rock brasileiro, ritmo que praticamente não existiu. Quebrou a cara, se esbarrando no sentimento anti-americanista que imperava na conciência da classe média da época e que representavam um grande número de vozes e votos no Brasil.

Por outro lado, algumas fontes biográficas virtuais afirma que ele simplesmente abriu mão da indústria fonográfica por vontade própria, pois não se sentiu bem com os rumos que esta estava tomando, optando assim, por uma vida tranquila. Tudo bem se fosse só isso, mas porque do esquecimento? Digo e repito, ele é apenas uma referência para um mal que atingiu muitos artistas daquela época, assim como foi com Wilson Simonal – Talvez o caso mais famoso de ostracismo da música brasileira – que fez muito sucesso durante um tempo, até ser tachado de delator da ditadura militar, e consequentemente, ser rejeitado pela população. Eis que surge uma tese a se trabalhada em outros próximos textos: “as esquerdas brasileiras sempre foram dominantes no que diz respeito à criação artística e sua difusão através da mídia, ao contrário do que muitos pensam”. Essa tese já foi defendida pelo filósofo brasileiro Olavo de Carvalho, pelo grande jornalista e intelectual Paulo Francis e pelo saudoso cronista e escritor Nelson Rodrigues. Serei eu o próximo a defendê-la. Mas agora, prefiro ficar com Guilherme Lamounier, este compositor que ainda será redescoberto; afinal, o Brasil precisa da sua música.

Aqui vai os links da sua discografia para os interessados. Basta copiar e colar na barra de navegação:

Guilherme Lamounier 1970
http://www.4shared.com/file/102016509/331da959/Guilherme_Lamounier_1970.html

Guilherme Lamounier 1973
http://www.4shared.com/file/102141233/63c1616d/Guilherme_Lamounier_1973.html

Guilherme Lamounier 1978
http://www.4shared.com/file/102147532/34e218a2/Guilherme_Lamounier_1978.html

Compactos 1975 - 1984
http://www.4shared.com/file/102145092/62cffa48/Compactos_1975-1984.html

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A morte


Gosto muito dos meus leitores, mas hoje acordei com desejos sádicos e sadomasoquistas; por isso, vamos tratar de um tema pouco agradável: a morte. Aperta o cinto, Sophia. Este tema soa indigesto, pois consiste no único paradigma imutável de nossa existência: a certeza de que vamos morrer um dia. Cultivamos duas coisas em nossas vidas: as metas para se alcançar o status da felicidade e os pequenos prazeres, onde o tempo parece congelar e dar lugar ao eterno. Esta horta nos permite ignorar a cada instante o pensamento sobre a morte. Mas desde já, não vou ignorá-la, vou judiar um pouco de mim e de vocês. E ai, leitor? Como será a sua morte? Sabe aquela dor física insuportável, a maior que você vai sentir na sua vida, tanto que seu corpo não resistirá? Pois é, ela vai vir. Estarás preparado? Quanto será que vai doer? E a dor? Esta é a que mais nos apavora. Ao saber que vamos ter que passar por uma cirurgia, arrepia até o cabelo do dedo do pé, quando projetamos o sentimento para a dor que vamos sentir no processo.


Pois é, por maior que seja o nosso bem-estar físico e psíquico, a dor virá nos castigar, e tudo será somente uma questão de decisão do maior agente de toda a nossa existência: o tempo. Esse aí é o mais sacana de todos, pois ele tem o poder absoluto. Quando pensamos que temos poder de mudar o mundo, ignoramos uma força muito maior que do que nossas mentes e nossas mãos... o senhor tempo. O tempo é quem realmente domina; do contrário, tudo o que se iniciaria não necessariamente teria um fim. E a verdade é esta: tudo tem um fim. Nada vai ficar, nem as memórias culturais mais resistentes ao tempo, como a de Jesus Cristo, por exemplo. Será que Jesus vai ser esquecido um dia também? Com certeza, será. Sabe-se lá se até então o tempo encontrará outro adversário tão poderoso quanto Jesus Cristo.


Quando criança, eu dei os meus primeiros suspiros filosóficos ao perguntar ao meu tio “Faé” se todos iriam morrer, inclusive eu. A resposta afirmativa dele foi um choque de milhões de volts. Eu me lembro de que chorei demais nesse dia, e desde então, eu não vivo um dia sem pensar por alguns instantes que em algum momento eu vou morrer. Eu fantasiava até sobre uma tal “pílula da imortalidade” que algum cientista competente iria descobrir antes que eu morresse. Pena que isso não aconteceu até agora. Na verdade, hoje eu penso que não gostaria realmente de ser eterno; porém, seria ótimo que pudéssemos viver mais do que esse período de permanência que o agente tempo nos permite viver. 60, 70, 80, 90 e agora 100... é muito pouco. O ideal seria que pudéssemos viver até 500 anos – aí sim, eu acreditaria que nas palavras de uma pessoa idosa de quinhentos anos que diz estar enjoada de tanto viver.


Bom, peço desculpas a alguns leitores mais religiosos do que eu. Eu sou um cara de fé, acredito em verdades universais, penso muito sobre a ética, o bem e o mal, sobre a salvação da humanidade. Até na eternidade espiritual eu acredito. O problema é o tamanho da subjetividade que abarca a idéia de morte e todos os afetos que a envolve. Por falar nisso, preciso assistir ao filme “nosso lar”, baseado na obra homônima de Chico Xavier; acredito que vai me render muitas palavras para um próximo texto sobre este tema. Atrai-me bastante a ideia de que somos espíritos encarnados, e por isso, a vida se estende além deste corpo. O problema é que ‘apenas’ atrai. Quanto a acreditar é preciso que meu sonho mais existencial se realizasse: receber a visita de um espírito desencarnado. Ah, como seria bom, eu faria milhares de perguntas a ele.