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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Não gostaria de ser eterno; porém, gostaria de viver oito séculos ... ou mais.



      Completei trinta anos no dia 31 de julho de 2012. Imaginava eu que o momento de tal acontecimento seria suportado por sentimentos melancólicos mais perturbadores. Perturbadora não deixa de ser a ideia de envelhecer e caminhar para a morte certa, algo que deve ser aceito de forma seca, grosseira, e com total isenção de barganha - A passagem do tempo se impõe em nossas vidas com uma violência um tanto quanto ardilosa. Ardilosa devido aos engendramentos culturais sobre o passar do tempo e o consequente envelhecer das pessoas. Só para fazer um paralelo: na cultura milenar do extremo oriente, envelhecer significa acumular sabedoria e ser respeitado com a dignidade que a sua idade lhes permite; já no extremo ocidente em que cá estamos, um culto aos modelos juvenis e a valorização da juventude se espalhou como uma praga na mentalidade da população ao ponto de fazer do envelhecimento, um sinônimo de decadência física e - por mais incrível que pareça - cultural. Tamanhos são os esforços criados para retardar o envelhecimento, para perpetuar aquilo que se esvanece facilmente como a própria vida: a juventude. Mais certo do que isto só mesmo a morte; tão amarga é a certeza como tão exaustiva é a negação utilizada como mecanismo de defesa contra cruel realidade. Aproximando essas duas verdades é que somos levados a crer que a perpetuação da juventude soa como uma ilusão de eternidade – a eternidade aí se encontra na sensação de que a morte possa estar o mais longe possível de nós.  
            Sou um cara que gosta muito de ler e entender sobre a história da humanidade, apesar de isso não condizer com a minha formação acadêmica. Gosto de entender a origem e o estado das coisas atuais a partir do que ocorreu no passado, seja ele recente ou remoto. Faço de livros de história, meus livros de cabeceira. Em meio a essa mania, o novo, nem me parece tão atrativo quanto o passado. Filmes e músicas antigos, tendo como principais referências, os anos 70, 80 e 90, são as minhas melhores opções de distração dentro do meu universo particular. E é justamente nesse momento em que eu mais me assusto, quando vejo artistas de uma época como os anos 70 hoje velhos ou até mortos. Como assim, tão rápido? Os anos 70 foram ontem, afinal. E os anos 80? Pessoa dessa época tão todas envelhecendo também. Eu assisto a um filme dessa época e vejo todos tão lúcidos, vivazes, jovens. De tão veloz, a passagem do tempo é mesmo cruel. E quando visito um passado ainda mais distante, outros séculos atrás nos livros de história, quando a sociedade se apresenta de uma forma bem diferente do que é hoje, é que eu me dou conta de outra realidade cruel: Além do tempo passar rápido, nossas vidas são muito breves. Não dá para atingir todos os nossos objetivos nesse pouco tempo de vida que temos – isso considerando o estado atual das coisas, onde criamos objetivos novos a cada segundo. E já que falei em ‘atual estado das coisas’ penso que a eternidade aqui na terra talvez não fosse o ideal, pois uma vez que a população não para de crescer, é preciso que uns passem a ceder espaço para outros habitarem com um certo conforto aqui na terra. Mas se não pudesse ser a eternidade, que fosse pelo menos a longevidade dos homens que habitaram a terra nos tempos de Moisés. Segundo consta no antigo testamento, esses homens chegavam a viver até 800 anos, ou mais. Após o pecado do dilúvio, foi que Deus resolveu reduzir a vida humana para entre 70 e 120 anos – malditos os homens que deixaram as coisas saírem do controle naquele tempo. E já que falei na bíblia, é sempre bom que pensemos que Deus é bondoso demais conosco, senão não haveria uma eternidade prometida para nós depois dessa vida – na linguagem dos católicos –, uma reencarnação nesse mundo – na linguagem dos espíritas – dentre tantas outras promessas. Não quero pensar no que possa ser justo ou correto divinamente falando, o que penso é: seria um grande ideal de vida para mim, viver pelo menos oito séculos ou mais. Quantas realizações não poderiam ser alcançadas com isso?  Haveria tempo suficiente para cada pessoa dar um real sentido às suas vidas, pois todas as experiências possíveis poderiam ser vividas num ritmo mais serenos e menos desenfreadas. Haveria mais tempo para não fazer nada e ver a vida passar. Enfim, todos os prazeres e desprazeres da vida poderiam ter suas vivências estendidas; afinal não é apenas de prazer que devemos viver, né?
            Saindo um pouco desta queixa, eis que retorno algumas linhas atrás, para a minha experiência de entrada nos 30, pois tem algumas coisas interessantes aí que eu gostaria de compartilhar com os meus leitores. Posso dizer que me preparei para o devido momento, pois algumas decisões foram tomadas meses antes e estas acompanharam um processo de mudança de atitude: Parei de fumar; passei a praticar a minha arte marcial que eu tanto admiro mas que às vezes me assusta devido à violência: o Muay thai; passei a frequentar academia e fazer musculação religiosamente todas as manhãs, acompanhado de suplementos alimentares e outros produtos para malhação. Tais mudanças me proporcionaram ótimos resultados fisiológicos e sociais – Fisiológicos: boa respiração, mais disposição, bom humor, corpo mais forte e bonito; Sociais: resultante das mudanças biológicas, eis que andei recebendo elogios quanto à minha beleza externa e minha energia interior. Em decorrência disto tudo, eis que vem a maior recompensa de todas: estou em paz comigo mesmo, com meu mundo interior e com Deus. E pensar que tudo não passou de um grande investimento narcísico como uma forma de se defender de uma crise maior que se anunciava. E daí? Que seja. Seja saudável ou patológica, o que importa é como você se sente internamente. Patológico não poderia ser então, senão seria uma contradição em termos. O fato é que fisiculturismo tem seus ganhos quando é bem conduzido – e sobre isso, devo acrescentar que a minha cabeça andou funcionando melhor e mais acelerada, apesar disso não ter favorecido uma maior produção para este blog. Tô sentindo a felicidade momentânea, algo como uma parte de uma grande realização, e isto é o que mais importa. Só lamento não ter sentido tal experiência no alvorecer dos meus 20 anos, o que talvez pudesse me favorecer mais conquistas amorosas oriundas de uma maior autoestima. É nessa parte em que mais pesa a limitação da vida: quando percebemos que não podemos voltar no tempo e que passamos a ter menos tempo para desfrutar das nossas conquistas quanto mais tarde as alcançamos. Isso há de se resolver um dia, quando formos capazes de viver oito séculos... ou mais. 

sábado, 26 de maio de 2012

Deus no ramo da salvação dos homens na terra



Trata-se de um cargo com alto nível de exigência em sua linha de produção: o da salvação dos homens na terra. Na empresa que presta serviços a este nobre planeta coberto de águas, tal cargo é ocupado única e exclusivamente por Deus, um funcionário que se revela proativo diante de uma demanda extensiva. Gerentes de outras grandes empresas do universo devem de alguma forma tentar convencê-lo a trabalhar com eles, ou até mesmo usá-lo como paradigma para o recrutamento de novos talentos. Não sei dos meios de produção disponíveis para a execução do seu trabalho, nem se ele conta com a ajuda de assistentes ou de tecnologia avançada para o cumprimento da grande demanda; e muito menos sei se tamanha demanda anda sendo cumprida corretamente, com todas as suas metas batidas e objetivos alcançados. O que sei é que a demanda é bastante grande.
É dessa forma que Deus tem sido representado na minha mente nas ocasiões em que me deparo com as pessoas recorrendo a ele nos momentos de desespero e aflição. Não se trata de um fenômeno atual - eu até suponho que os pedidos de ajuda a Deus foram mais intensos em épocas mais obscuras do mundo ocidental, como na idade média. Porém, é atual a demanda pela oferta de um Deus que possa garantir a resolução dos problemas e menor tempo e da melhor forma possível nesse grande mercado de religiões em que se encontra a cultura ocidental. Algumas igrejas evangélicas, por exemplo, costumam pregar que Deus ama a todos e que tem um bom projeto de vida para as pessoas que seguem o seu caminho. Religiões de matrizes afro-brasileiras, que cultuam os orixás, garantem a resolução dos problemas através de trabalhos e obrigações que uma pessoa venha a fazer por aquele orixá; nesse caso, é o orixá quem ajuda a pessoa em troca de alguma coisa. Esses são dois exemplos de religião que oferecem uma salvação mais do ponto de vista material; não é a toa que, devido à semelhança do produto ofertado, ambas são bastante rivais no mercado. Também há religiões que apontam para um caminho de salvação espiritual, e não material; em outro mundo, e não neste. São os casos da Igreja católica, do Espiritismo, do judaísmo, do islamismo, e também de outras que possam existir. No caso da igreja católica, existe a crença nos milagres, o que mantêm o padrão de relação dos fieis para com deus na mesma linha de esperança salvacionista.
Sobre a salvação, eu tenho a seguinte visão: Deus criou o mundo e seis dias e descansou no sétimo; após isso, ele deu o livre-arbítrio aos homens para que eles continuassem com o trabalho de criação de Deus na terra. Só que o livre-arbítrio implica na liberdade de se fazer o que quiser e o que bem entende, o que permite que coisas possam ser feitas para o bem e para o mal. O julgamento a respeito do bem e do mal fica a cargo da ética e da moral de uma sociedade, da cultura e de cada pessoa nela inserida. A religião teria então o compromisso com essa moral no fazer dos homens. Mas, como a moral religiosa não acolhe todos os interesses do homem, é inevitável que se crie uma justiça dos homens, que em muito não corresponde com a justiça divina. É a essa justiça dos homens a qual estamos submetidos. Ou seja, quando nos questionarmos sobre o porquê de sermos pessoas tão boas e não termos o retorno necessário para a nossa felicidade, lembre-se de que não é à justiça de Deus que devemos reclamar, pois o reino de Deus ‘não é deste mundo’. É aos homens que devemos reclamar.
 Em relação a tudo isto, eu me identifico com os movimentos espiritualistas asiáticos - que não se caracterizam como religião no sentido tradicional ocidental por representarem mais do que isso: Trata-se de práticas do dia-a-dia, filosofia de vida, reflexão a respeito da nossa relação com o mundo e com a natureza. Podemos incluir dentre eles: o budismo chinês, tibetano, tailandês; o Hinduísmo, o Taoísmo, dentre outros. São tradições mais de mil anos, formadoras de uma cultura centrada no homem, no seu interior, no desapego às coisas externas como um caminho para o crescimento pessoal e espiritual. Os ensinamentos de Buda dizem que as respostas estão no interior de cada um de nós, e que é somente nós que poderemos encontra-la. Contrapõe-se à busca da felicidade através do meio externo, pois o mundo externo só nos trás dúvidas e contradições. Mais do que isso, eles dizem que nós e a natureza somos um só, uma unidade integrada e indivisível – diferente do que a nossa cultura ocidental nos faz pensar com o paradigma cartesiano. Nessa relação indivisível com a natureza, somos inteiramente responsáveis por tudo o que fazemos e tudo o que fazemos: nossas ações causam modificações no ambiente, e este enviará respostas para você na mesma proporção da sua ação. É a lei da ação e reação – A reação é o que os budistas tibetanos chamam de Karma. Em outras palavras, não somos seres odiados por Deus por sermos infelizes, pois ele não tem domínio sobre as ações do homem e nem sobre nossas próprias ações. Tudo o que fazemos gera consequências para nós mesmos, o que significa que nós mesmos que construímos nossa felicidade. Podemos estar na pior situação social e pessoal, mas se formos guiados por bons pensamentos, por boas intenções em relação às outras pessoas, não restará dúvida que um dia teremos um bom retorno, mesmo que isso tarde. O caminho da meditação que os budistas possuem é um meio de nos desapegarmos das coisas que nos fazem se sentir mal – angústias em relação ao passado, medo do futuro... - e nos concentrarmos no que está acontecendo no presente, dentro de nós e a nossa volta. É uma forma de autoconhecimento, uma forma de assumirmos as rédeas do nosso destino e deixarmos um pouco Deus em paz. A partir disso, a única forma que teremos de incomodar a Deus será através da nossa gratidão a ele, pela vida que ele nos deu, pela oportunidade de estarmos vivenciando tudo isto.

sexta-feira, 16 de março de 2012

A mediocridade é uma Coletânea de sucessos.

Homenageio, aqui-e-agora (parafraseando Fritz Perls), um velho amigo homonimamente chamado Mateus. Não sei por onde ele anda e nem o que anda fazendo, mas eu desejo todas as coisas boas possíveis para ele. Ele costumava dizer que a “mediocridade é uma coletânea de sucessos”. Isso porque a coletânea de sucessos não traduz a criatividade mais profunda do artista; enquanto ele se lasca pra criar toda uma discografia, uma obra musical (no caso dos artistas musicais), chega um fila da puta qualquer e escolhe vinte músicas de uma obra de mais de quarenta discos desse artista para montar uma coletânea. Mais medíocre ainda seriam os ouvintes que se intitulam conhecedores e adoradores do artista quando só conhecem aquelas músicas inclusas na coletânea. Isso seria mediocridade para mim: conhecer o superficial enquanto se considera um profundo conhecedor; espalhar belos discursos e defender opiniões sobre as quais não se tem profundidade a respeito. É preciso ter o bom senso de perceber a sujeira que se torna cada vez mais os meios culturais por onde você circula, uma vez que as pessoas aprendem cada vez mais com as suas palavras superficiais. Trate de algum assunto que você conhece com profundidade e você sentirá um tratamento diferenciado das pessoas com relação a você. E ainda digo mais, sentirás isso mais intensamente quando puderes casar esse conhecimento com os valores positivos que você tem, tornando-os claros paras as pessoas. Isso porque a humanidade clama por bons exemplos - quando elas não ficam cegas por suas mediocridade, lógico. Seja profundo em assuntos interessantes e relevantes para se conversar, e dê a sua opinião sobre eles; inclua neles os seus valores positivos... enfim, seja uma Obra original, não uma Coletânea.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

AMOR (de novo) ... que porra é isso?

Esse é um tema bem recorrente em textos meus deste desenfreado blog; mas como se trata de um tema proposto por Daniel Násser – que entrou na brincadeira Desafio Textual, idealizada pelo meu primo Mário Barros – vale a pena dissecar um pouco mais sobre o devido assunto. Continuo repetindo que Amor é um termo bastante vago no dicionário brasileiro, podendo ele significar coisas algumas como: afeição, compaixão, misericórdia, inclinação, atração, apetite, paixão, querer bem, satisfação, conquista, desejo, libido, etc. Também é muito variado os contextos em que o amor se manifesta: Relação sexual, atividades diversas (profissional, ocupacional, hobbies, etc.), relações de amizade, relações familiares, religiosidade, gestos de caridade, e novamente ... etc.

São tantos etc.’s que eu fico perdido ao decidir sobre que tipo de amor irei dissertar. Dúvida rápida e passageira, pois sempre acabo por decidir falar sobre o amor mais evidente e problemático de todos: o amor sexual... esse que é constantemente confundido com paixão. Desde que comecei o meu blog que tenho ousado falar deste tipo de amor sem tanta propriedade, pois nessa minha atual existência – que neste ano celebram trinta anos – ainda não tive a bênção de vivenciá-lo enquanto experiência real, vivida e confirmada. Penso nele todos os dias quando estou só – na cama, na rede de balançar ou diante da janela virtual do facebook – ou em público – quando vejo casais se beijando nas baladas. Nunca tive talento para conquistas. Conquistei algumas garotas sem muito esforço, pois não foram aquelas que eu queria. Quando eu me interesso por alguma garota, alguma coisa sempre dá errado, e essa sempre tem sido a minha sina. É por esse motivo que não tô tão motivado para falar de amor agora... prefiro usar essas delongas apenas como enchimento de linguiça, cuja finalidade é bater a meta do desafio proposto por Daniel Nasser. Por sinal, estou atrasado, já deveria ter postado essas bobagens a três dias atrás.

Bom, acho que o amor dos casais (o dito amor sexual) só pode ser considerado amor quando a etapa da paixão é superada. Paixão é a primeira etapa da formação de um casal, e como tudo mundo já sabe disso, não adianta explicar demais. É quando os sentimentos em relação ao outro são intensos – promessas de que o relacionamento irá durar. Tudo é intenso: a atração, o tesão, o ciúmes (até os sentimentos negativos entram), as identificações, e blá, blá, blá. Só sei disso na teoria. Já o amor, pode-se dizer que ele começa quando as intensidades diminuem, dando lugar a sentimentos mais nobres e duradoudos: Companheirismo, compreensão, cumplicidade... e a velha identificação. É quando um casal passa por crises; porém, diante destas, percebe que é melhor manter a relação do que se afastar, pois a partir dela, conseguiram criar um modo de vida a dois. É quando se assemelha, em alguns aspectos, ao amor de pai e mãe, considerando o modo de vida ao lado deles que por eles foi proporcionado. Acho que esse amor existe nos dias de hoje, mas é muito frágil, quando vivemos numa sociedade de consumo que dá uma nova lógica às relações a dois: qualquer pessoa do sexo que lhe atraia, seja ela anônima ou conhecida, pode representar uma possibilidade de relação, não importando mais o seu status social, etinia, idade ... basta apenas que ambos os lados queiram que haja a relação. Assim sendo, o que significa você optar por uma pessoa para ser o seu parceiro? Significa excluir todas as outras opções. É um peso muito grande.

Ano passado teve o caso de uma tia minha que se separou do seu marido porque sentiu que o amor havia acabado. Na verdade, não foi o amor, foi a atração sexual. A relação deles durou 23 anos. O mesmo aconteceu com uma amiga minha, no final do ano passado. Depois de quatro anos de relacionamento, ela percebeu que não sentia a atração que sentia antes pelo seu parceiro. O interessante desses dois casos é que o motivo pelo qual as duas mulheres deixaram de sentir desejo sexual pelos seus parceiro foi o mesmo: os parceiros se acomodaram nos seus modos de vida, deixando a ambição de lado, e, consequentemente, permitindo o esvanecimento do sentimento de admiração que as mulheres sentiam por eles. Tem algo de muito significativo nisso: Além da beleza física (principal elemento da atração), há um forte conteúdo de ordem ocupacional que despertam o interesse das mulheres em relação aos homens. Mas isso é pano para uma outra discussão. Por hora, acho que o amor é isso. Xau.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Preconceito


Bem, aqui estou, sentado diante do universo de onde pareço ter nascido, pronto para mais uma elaboração sem – ou talvez cheia de – paralelos. Hoje o tema é... “preconceito”. Esse daí surgiu a partir de uma brincadeira saudável proposta pelo meu primo Mário Barros, onde um de nós dois lançamos um tema por semana, e a partir disto, cada um elabora o seu texto. Na ocasião, foi a minha vez de lançar mão do tema, e a primeira palavra que a minha mente criativa me presenteou foi: Preconceito. Então vamos lá. Sabe quando você cruza com uma pessoa desconhecida na rua, festa, novo emprego... onde quer que você esteja? Pois bem, não se trata apenas de ‘mais um desconhecido’. Trata-se do NOVO. Universo inexplorado, e que por ser isto, poderá te afetar de várias maneiras. Só que nunca estamos preparados para o impacto do Novo (universo inexplorado) em nosso Self. Ou, melhor dizendo, nunca estamos seguros quanto à imunidade do nosso Self frente ao impacto do novo. Logo, que outra reação a chegada desse Novo pode nos causar a não ser uma específica: o Medo? Medo de nos desestabilizar; medo de escorregar diante desse misterioso novo a ponto de passarmo a olha-lo de baixo para cima. Em seguida, vem as reações contra este medo, aquelas que caracterizam o preconceito na maneira como o conhecemos: discriminação, rejeição, crítica, aversão. De uma forma geral, tais reações sucedem uma análise bastante superficial da maneira como a pessoa se apresenta, levando em conta apenas a sua imagem.

Esta pequena e resumida explanação (qualidade textual que não se trata de novidade para aqueles que já estão habituados a ler meu blog) apenas sugere aquilo que me propus a colocar como ideia central para este tema: O preconceito é muito mais do que discriminação racial, sexual e social. É, também, mas vai muito além; e como ilustração disto, basta prestarmos atenção a outros tipos de discriminação que ainda não chegamos a levar para o plano das discussões de idéias. Existe preconceito contra gordos, conta fumantes, contra pessoas de meia idade, etc., etc., etc. Nunca vi um gordo feliz com a sua imagem refletida no espelho; e muito menos, um gordo transitar pelo social isento de críticas por parte de outras pessoas quando aos seus dotes físicos. E os fumantes? Já foram mais felizes um dia, quando a sociedade não correspondia aos padrões politicamente corretos da saúde e eles podiam fumar o quanto quisessem em bares e restaurantes. Pessoas de meia idade? Essas última tem voz e atitudes dignas de respeito num mundo globalizado onde se valoriza apenas o espírito e a aparência jovem?

Modelos de discriminação a parte, eu ainda creio que o preconceito vá além disto. Basta que se saiba que preconceito, etimologicamente, é o mesmo que ‘conceito-pré’, atribuições deste quando este ainda sequer existe. Atribuições podem ser juízos, comparações, análises, sínteses, tudo aquilo que corresponde a atividades subsequentes ao axioma aristotélico. Só que, no caso do preconceito, utiliza-se disso tudo sem a presença do conceito, aquele elemento do conhecimento que poderia validar todas essas atividades de modo ampliar o próprio conhecimento. Em outras palavras, preconceito é burrice mesmo. Falta informações para se julgar, para se chegar a conclusões – coisa que só seria possível com a participação do conceito. Agora eu pergunto: Preconceito existe somente para julgamentos negativos? Não! E ainda dobro esta resposta, pois o preconceito não existe para julgamentos positivos e negativos... Ele é o resultado da presença de um sobre o outro. Tomemos a imagem como um imperativo: Para que existe um modelo de ser humano a ser discriminado, é preciso que exista outro a ser bastante aprovado. É como uma seleção de empregos para vendedores, onde o emprego já está previamente garantido para a aquela loira alta e gostosa, deixando as pobres concorrentes frustradas. O modelo ideal tá lá para ser julgado e discriminado tal qual o modelo negativo. Nem um dos dois foram explorados em seus conteúdos mais essenciais; a imagem falou por si só. E assim termino este texto. Feliz 2012 para todos, e que esse ano seja muito bom para todos vocês; Vamos ser inteligentes e explorar todos os conceitos possíveis; Não tenham medo do novo; Queira conhecer um pouco mais daquele que se apresenta diante de vós!!! Até a próxima. Tchau.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

um ano sem tio Benito



E para terminar mais um ano de Blog, um texto sobre tio Benito encomendado por Daniel Nasser, que atua no blog Sub Rosas (http://subrosa13.blogspot.com) e que fez uma homenagem para ele depois de um ano de sua morte, reunindo textos de diversas personalidades da cidade Macau, sobre a figura que foi Benito Barros...


"Não é fácil abrir mão de palavras sobre Benito Barros, mas já se que se trata de um pedido originado dos sentimentos de um amigo meu e conterrâneo do homenageado, eis que acendo o pavio. Convivi muito pouco com ele, pois apesar de ser meu tio, vivemos em lugares diferentes: ele em Macau e eu em Recife. Não que a distância física determine a distância espiritual, a não ser quando cada um dos entes possui um sentimento especial pela sua terra. Ele soube expressar esse sentimento melhor do que eu tô tentando, mas nada como boas referências para desenvolver tal atitude. Seu material a respeito da sua cidade interessa a estudiosos de várias áreas acadêmicas: Sociólogos, antropólogos, engenheiros, linguistas, filósofos, geógrafos, historiadores, teólogos, cientistas políticos, e por aí vai... basta que eles possuam Macau como tema de referência.

Mas prefiro aproveitar essas breves linhas para tratar da pessoa dele segundo a minha perspectiva parental. Minhas lembranças remotas de tio Benito advindas do meu período de infância - aquelas que podem definir com a máxima sinceridade possível – remetem a um cara que falava alto e grosso, mas que afinava a voz quando bebia: um cara ativamente mal-humorado em tensa sobriedade e alegre em solene embriaguez. Assim como eram seus estados de embriaguez eram seus momentos de ressaca, quando ele, anarquicamente, resolvia interferir nas brincadeiras dos meus primos (coincidentemente, seus queridos sobrinhos). Lembro de uma vez que nós estávamos tentando fazer um filme com uma daquelas câmeras antigas (meados dos anos 90) de VHS, e ele teve o atrevimento de atrapalhar as cinco cenas do nosso carinhoso projeto cinematográfico (ambientando no paraíso tropical de barreiras). Também me lembro das pescarias no mar, onde caminhávamos raios de metros mar seco adentro em busca de carangueijo, ou somente para olhar a diversidade biológica do mar. Lembro-me do seu iate, na maioria das vezes, estacionado na praia, onde servia mais como bar do que como barco de pesca.

Quando criança, meu contato com Tio Benito era mais frequente por causa das férias. Na adolescência, devido à moratória requisitada pela idade, as opções de ser e estar eram diferentes daquilo, e a cidade Macau começou a parecer mais distante. Assim como foi com a cidade, foi meu contato com Tio Benito, que raras vezes saía de lá. Mas meu pai e meus tios e tias sempre mantiveram contato com ele, que adorava receber boas notícias dos sobrinhos. Eu percebia que ele gostava das produções artísticas dos sobrinhos: vide sua admiração pela banda Incredible Scroobs (do meu primo Paulo) pelo meu Maracatu, desenhos do meu primo Mário, e outras coisas mais. Há cincos anos que eu levei meu maracatu para se apresentar em Macau para desfilar na campanha do candidato Eduardo Lemos em uma eleição para prefeito que aconteceu extraordinariamente em janeiro. Fomos muito bem recebidos por Tio Benito: Ficamos hospedados na sua casa e ao final, ele presenteou cada um dos meus batuqueiros com um vinho chileno o qual eu não me recordo o nome (tratamos de degusta-lo o quanto antes).

Ele vibrou muito em nossos desfiles pela cidade. Minha última lembrança dele foi no aniversário de 80 anos de vovó Terezinha. Ele estava sentado do lado de fora do salão, onde ele poderia fumar e beber o quanto quisesse. Passei uns quarenta minutos conversando com ele; e dessa conversa, eu me lembro dele dizer que estava preocupado com a situação dos jovens em Macau, que estavam - em considerável número – se afundando na dependência química (mais especificamente do crack). Também me lembro dele recitar um discurso em forma de poema sobre vovó, tão brilhante e emocionalmente estoico como ele sempre foi. Termino este texto da mesma desejando que a eternidade seja um bom lugar para ele (Deus deve ter precisado dele como secretário geral do Universo, pra tê-lo levado assim tão de repente), e tal como a eternidade seja o eco da pronúncia de seu nome na cidade de Macau e nas próximas gerações da família Barros."

Feliz 2012 para todos...

Nunca percam as esperanças!!!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Nostalgia e Reggae




Já chega, desta vez passei tempo demais sem escrever. Bati o recorde de preguiça e me acomodei no conforto angustiante das redes sociais enquanto não transformava uma gota de pensamento em palavras. Vamos ver agora como anda o meu pique. Mas agora o clima é mesmo de paz e conforto; pois após um período de letargia mental que se apossou de mim devido a uma nuvem negra que pairou sobre a minha cabeça em novembro, eis que chega dezembro em clima de retrospectiva de um ano que se vai. Ao invés de retrospectiva, algumas pessoas como eu preferem recorrer a recordações mais antigas, o que dá vazão a um sentimento ambíguo, provocador de prazer e desprazer ao mesmo tempo: a nostalgia. Tal sensação diz respeito ao prazer de reviver algo que já foi felizmente vivido, e, também, ao desprazer de cair na consciência de que este tempo não volta mais. É uma espécie de sentimento pelo irreal, por imagens que permanecem apenas na memória em contraste com uma realidade cujas imagens apenas deixaram marcas. Talvez a época do natal remeta um pouco à nostalgia de forma arquetípica, pois na data dele, comemoramos o aniversário do nascimento do nosso grão mestre, que há séculos não vive mais entre nós, mas que paira no nosso inconsciente coletivo.

Minha prosaica sintonização com a nostalgia aconteceu em peso quando, por acaso, resolvi utilizar os artifícios cibernéticos para encontrar uma canção que tocava frequentemente nas sintonias radiofônicas de Pernambuco, em um período remoto da minha vida. A melodia não saia da minha cabeça, mas a única parte da letra da música que minha memória conservava era uma simples frase que dizia: “Vento norte, protetor... vento norte, tradutor... justiceiro, bendito, ensina a viver nesta terra carente de paz e amor”. Nem sabia qual o grupo que tocava; mas o Google com a sua infinita eficiência localizou rapidamente os autores: o grupo chama-se “Grupo Karetas”; e o nome da música... “vento norte”. Trata-se, na verdade, da primeira canção de Reggae gravada em Pernambuco (no ano de 1983), e, portanto, a primeira inserção do estilo no dito estado do Brasil – vale ressaltar que tal fenômeno antecedeu outro ainda maior: a invasão do Reggae no estado do Maranhão, que só aconteceria lá pelos idos de 1987. Em poucos estantes, estava lá eu me deliciando com o tal vento que vinha do norte e entrava pela janela da minha antiga casa, situada na Rua Capitão Sampaio Xavier, no bairro dos Aflitos.

Tal recuo ao imenso prazer que presenteia a nostalgia me motivou a procurar saber um pouco mais sobre Reggae; adentrar um pouco mais na sua história, seus primórdios. Seu surgimento ocorreu na Jamaica, em meados de fim da década de 60 – período de mudanças culturais ocorridas, paralelamente, em diversos países da américa e da Europa, atingindo o campo das artes com inovações ousada na busca por novas formas. Fusões de estilos musicais que culminavam em um novo estilo eram bastante frequentes; e nesse aspecto, o reggae surge a partir de uma fusão do Rocksteady , o Ska e o Skank. Menos original (porém genuíno) eram as mensagens que as canções de reggae carregavam e carregam até hoje: paz, amor, liberdade e contra as guerras (assim como outros movimentos da contracultura que surgiram como protesto contra guerras como a do Vietnã). Tal mensagem hoje é bastante confundida por maconheiros e porra-loucas que cultuam o reggae como uma extensão das suas lisergias. Ao longo dos anos, alguns pequenos incrementos rítmicos foram inclusos no reggae; porém, tal acontecimento hoje é vitima de resistência por parte dos amantes do reggae que preferem o formato Roots (denominação carinhosa dada ao Reggae de raíz). Isso reflete uma tendência do reggae a ser conservador; e como consequência disto, não somente os amantes do estilo cultuam nomes clássicos como Bob Marley e Peter Tosh, como as próprias bandas que surgem e fazem sucesso entre o público, não apresentam sequer uma inovação musical. Essa preferência pelas raízes da coisa não tem muita semelhança elementar com a nostalgia, mas os termos que os definem se aproximam bastante: Se nostalgia significa reviver (regressar mentalmente a...) uma época que se passou, e raízes está relacionado a origem (algo situado no passado), então, nostalgia e reggae tem tudo (ou muito) haver. E por falar em roots e raíz (a mesma coisa), fui atrás de assistir ao filme “The Harder They Come”, de 1973, estrelado por Jimmy Cliff, um dos patronos do reggae. Nada mais raíz que este filme, que foi um dos principais responsáveis pela divulgação do Reggae fora da Jamaica. Sua história é banal, mas sua trilha sonora é gostosa e nostálgica... um personagem à parte. O reggae é pura nostalgia.