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domingo, 21 de fevereiro de 2010

Cantarolando o Autismo



Falar sobre autismo é semelhante a falar sobre uma pessoa que não se sente bem em um ambiente onde não foi devidamente acolhida. As pessoas no ambiente não notam a sua presença, não se interessam pelos seus assuntos, e por isso, a existência da pessoa naquele devido momento da experiência passa a estar comprometida. Essa mesma pessoa também não pode fazer nada para mudar o desejo do outro que a acompanhou até esse lugar e do qual ela se encontra dependente para voltar para casa. O que fazer numa situação dessas? Uma fuga para a imaginação parece ser uma boa alternativa para suportar a angústia de permanecer forçadamente naquele ambiente inóspito: Olhar para os lados ou para lugar nenhum, desaperceber cada vez mais os estímulos externos e se deixar viajar nos pensamentos, lembrar-se de uma música ou de um filme. Tudo vai bem até que essa viagem interior é interrompida por alguém... alguma voz surgiu bruscamente no lado de fora. Alguém comenta algo com você, não se sabe ao certo o quê. O conteúdo da sua fala deste alguém não é compreendido, muito menos o motivo que poderia ter levado o emissor a cometê-lo: promover uma integração com o grupo de pessoas que está pouco incomodado com a sua apatia. A situação causa mal-estar e tudo o que se escuta é ruído - que de alguma forma o incomodou por ter de lhe arrastar tão violentamente daquela agradável sensação de meditação. O que fazer nessa hora? Minha boa educação cristã me diz que eu tenho que responder a ele. Porém, lá no fundo do meu peito não havia mais interesse por aquele ambiente, nem pelos assuntos, nem pelas pessoas e muito menos por esse que me fala. Eu havia acabado de encontrar um lugar agradável num mundo que eu mesmo construí, que me permitiu ser quem eu quisesse e como eu quisesse ser.
É mais ou menos assim que funciona a cabeça de uma criança ou um adulto autista, só que num estado, logicamente, muito mais grave. Deixa que eu explique. A criança que se tornou autista percebeu a inospitalidade do mundo numa idade ainda que muito precoce. Winnicot(1976) aponta para a incidência deste ocorrido ainda na fase de gestação, onde a criança já não era desejada. Sendo assim, ela nunca teve um lugar no mundo reservado para ela, onde ela pudesse se desenvolver e dar sentido às histórias das pessoas que a cercam. O mundo lhes foi negado num momento em que a criança precisava dele ainda para descobrir as suas emoções. As emoções são mecanismos psíquicos fundamentais para a construção do eu, para a formação do sujeito como uma unidade no mundo. Sem esta unidade, sem este EU, a criança é uma massa caótica (parafraseando Winnicot), um espaço vazio. E voltando para as emoções que antecedem a formação deste eu, elas só são possíveis na presença de um outro. À partir do momento que o outro permite, nega, oferece e toma, a criança apresenta reações como o choro ou o sorriso. Conceitos como o Holding ou o Handling (Winnicot, 1962) é que vão estabelecer a qualidade na maneira como as emoções se desenvolvem na criança. Mas por outro lado, como as emoções se desenvolverão quando o outro se ausenta? Até então, a única referência de mundo que essa massa caótica chamada criança possui de mundo é o outro. Se o outro não existe, o mundo para a criança também não existe.
Para Winnicot, a Criatividade é o mecanismo existente entre o ser e o mundo através do qual o mundo legitimará cada vez mais a existência deste ser. É outro passo para a construção do Eu: a Criatividade. O que eu faço deve de alguma forma ou de outra ter algum efeito no mundo, só assim eu percebo que dentro do meu corpo existe algo que dá sentido ao fato deu estar habitado neste. O sujeito se reconhece e reconhece o mundo pela sua criatividade; assim sendo, podemos entender a criatividade como um mecanismo de sobrevivência no mundo. E se o mundo se torna inexistente para o sujeito, como na situação anteriormente citada? Como fica essa sobrevivência? A resposta é a Criatividade. Só que ao contrário do saudável, essa sobrevivência ocorrerá em outro plano: através da criação de um mundo próprio, aonde a sua criatividade possa ser reconhecida. Tom Cruise no filme Rain Man (1989) até explica o autismo dessa maneira: “uma pessoa que vive num mundo só dela”.
É uma interpretação mais verdadeira e até mais saudável do autismo, uma pessoa que optou por um modo de sobrevivência no mundo. Pena que o preço que se paga do essa opção é um pouco alto, pois o mundo existe materialmente e a criança autista sempre se esbarra nele. Alguns conseguem se adequar através de rituais bem específicos, mas como o mundo acontece a cada instante, eles acabam por se esbarrarem em sua imprevisibilidade. O mundo tem as suas leis, e o autista não as reconhece. Segundo F. Tustin (1964), a criança autista percebe o mundo(ambiente) como sendo uma extensão de seu corpo. Assim sendo, é doloroso para ela esbarrar em seu próprio corpo, percebendo que este possui falhas em seu funcionamento.
Como consideração final sobre o autismo, posso dizer que não é só a criança que não compreende as leis do mundo; o mundo também não compreende a criança autista. Não consegue acolher essa criança no seu estado já cronificado. Também pudera, não é possível de se estabelecer um diálogo convencional com ela. Os educadores sofrem com o seu comportamento de quebrar as coisas, de urinar e fazer fezes sem o menor aviso prévio. A sensação de estranheza que atravessa o autista também atravessa as pessoas que estão diante delas e muitos sentimentos – tal qual a rejeição precoce por parte da mãe que originou o transtorno. Semana passada assisti ao filme “minha esperança é vocÊ”(foto), dirigido por John Cassavetes em 1962 - Uma raridade: um filme desta época registrando o tratamento com crianças excepcionais. Neste filme, o pai do protagonista autista fala o seguinte quando a sua esposa lhe perguntara se ele não sente nada pelo filho: “sinto sim... sinto vontade de abandoná-lo... minha vida era cheia de planos, e hoje, eu gastei tudo por ele não tenho mais nada”. Não podemos culpar este pobre personagem pelo que ele sente, mas também não podemos tirá-lo de sua responsabilidade, pois este sentimento é derivado do que a criança também sente por habitar nesse mundo. Os profissionais que trabalham com este público também precisam superar este sentimento de rejeição. É um trabalho de duplo esforço. Uma vez que o sentimento de rejeição é afastando, criamos espaços livres em nossa razão para alcançar o mundo da criança autista – reconhecer suas motivações, suas afinidades. Quando a criança reconhece que existe um mundo que reconhece os seus desejos, cria-se a possibilidade desta direcionar a sua criatividade para este novo mundo. O afeto é a grande chave para o sucesso deste profissional.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Ensaio sobre o amor trágico



(passei a virada de ano com uma leve sensação de roedeira, mas agredeço muito à pessoa/motivo da dor por ter possibilitado a criação desta pequena reflexão histórica)




O amor suscinta a aparição de algumas tragédias: ele pode nascer a partir delas ou pode terminar com elas. Me refiro à paixão amorosa, aquela que pode apontar para um outro ou mesmo para si próprio, como foi o caso de Narciso, cuja tragédia recaiu sobre a simples contemplação da sua imagem refletida sobre a água . Um fenômeno antigo que faz parte da história do amor e que a humanidade ainda não aparendeu a lidar é o amor não correspondido – creio até que este pode ter se originado a partir do neolítico, quando o homem já deixara de usar a força física para adiquirir suas mulheres tal como caçavam animais. Na medida em que a liguagem ganha espaço na formação cultural das nossas cabeças, o homo sapiens sapiens estende a sua massa encefálica para a criação de sentimentos. Logo, os sentimentos passam também a fazer parte do sexo, associando-se a ele através de uma lei regida pelo gostar-não gostar, sentir-não sentir. Isto atravessou a história da humanidade e se configurou de acordo com as diversas transformações sofridas pela sociedade – me refiro aqui à sociedade ocidental, já que não tenho tanta propridade pra falar das culturas do lado de lá. Antes do advento do cristianismo como a religião mais dominante da cultura ocidental, no período que data a antiguidade classica – a da grecia antiga – o amor existia para o homem sendo então excludente as mulheres, que não tinham voz e aparição diante da sociedade que compunham a cidade-estado; só que esse sentimento era previlégio de poucos e era muito pouco explorado diante da representação social almeijada pelo homem no espaço público dessas cidades-estado. Foi um periodo de surgimento da cultura, e com ela, do homem político, este que tinha vez, voz e existencia diante de tal ambiente biológico. Minimamente é que as expressões mais sentimentais surgiam através da arte, como pode ser conferido nas tragédias gregas dos tempos de péricles. Avançando um pouco na linha do tempo, temos a idade média, onde uma nova moral foi imposta pelo poder absoluto da igreja. Nesse período, a união entre homens e mulheres se dava através da união sagrada do matrimônio, que também era um previlégio de poucos, considerando que a aristocracia dos feudos era quem tinha a dádiva do sagrado. Aos pobres restavam o amor, mas este logo desaparecia com a praga da peste bubônica. Avançando mais um pouco, chegamos na modernidade; extingue-se o regime feudal e entra em cena a burguesia, dando uma grande expanção à cultura com as mudanças que ela trouxe à sociedade. A burguesia criou o capitalismo, e junto com ele, uma nova perpectiva: a individualidade. Esse fenômeno foi inédito na história da humanidade, pois nunca o homem foi tão dono dos sua vontade e tão responsável pelos seus desejos. Tal sensação de liberdade e desejo – aí uma faceta da paixão – levou o homem a avançar nas navegações, a fundar novas etnias e criar uma doutrina fascinante como o Iluminismo, que mais tarde iria dar origem a novos paradigmas políticos, científicos e filosóficos. Na literatura, surgiram grandes romances, de amores impossíveis acontecendo no cerco da burguesia e tragédias decorrentes destes: William Sheakespeare, Leon Tolstoi, Jane Austen, Machado de Assis... Ah, foram tantos. O movimento Romantismo foi o principal responsável pela elevação do sentimento em dentrimento da razão. Isso foi inspirando pensadores como Rosseau, que tratava de política com um viés bastante sentimental , e Nietzche, cujo pensamento criticou o racionalismo puro e originou uma filosofia inteiramente voltada para o homem. Cabe considerar que, até um certo período, a união entre homens e mulheres se baseavam em acordos comerciais entre as famílias da burguesia, dando pouca margem ao sentimento. Os pais casavam os filhos, e a tragédia do amor não correspondido se manifestava em forma de fantasias silenciosa; daí a fonte de inspíração para grandes romances. Chegando no século XX, o homem se esbarra na pós-modernidade, que nada mais é do que a modernidade apresentando consequencias verdadeiramente trágicas ao homem; uma espécie de falha da modernidade. A individualidade chega ao extremo, desta vez com o apareto tecnológico e com as revoluções na cultura, no comportamento dos jovens. O homem pós-moderno tem seu próprio computador, sua própria televisão, tudo tão próprio a excluir a sua identidade, que se encontra prejudicada pela imensa gama de informações antagônicas que recebe. O homem pós-moderno deseja e não deseja ao mesmo tempo, não se reconhece diante das suas escolhas, sofre crises existencias, depressões, consumo de drogas e outros transtornos psíquicos. Para cada mal, existe um remédio que deve ser consumido - o consumo é a lei, o objetivo maior do homem pós-moderno. O amor também se tornou consumível; ou seja, ele pode se apaixonar por quem ele quiser, basta selecionar as características no outro que mais se adequem ao seu gosto. O problema basta ser a outra pessoa querer, corresponder a este amor – eis a tragédia amorosa da pós modernidade. Pode-se dizer que se ama de uma forma individual, tal como os objetos da pós-modernidade. As pessoas vivem seus universos particulares com seus conflitos individuais os quais não publicam nem para a mãe – nunca a psicoterapia foi tão requisitada. Por fim, posso terminar esse ensaio criticando um pouco esse modelo de amos trágico: O amor não correnpondido representa uma tragédia, mas não concebe nenhum dos personagens como vítima, pois se ama da maneira mais individial possível. E por que não dizer egoísta?

sábado, 7 de novembro de 2009

Ensaio de Psicodelia Crítica... um pequeno lixo textual


Aí vai o recado de um certo Nélio Narigudo, um sujeito indecente que diante de uma tentativa frustrada de ganhar a atenção de leitores desocupados da “rede interna”, resolveu publicar essa porcaria:
“Como será que age a carne ante a sensação de medo? Essa pergunta pode ser respondida por alguns grupos de moradores da zona norte do Rio de Janeiro. É que as primeiras semanas do mês de outubro foram marcadas por um retorno às evidencias do quadro da guerra social no rio, esta que teve inicio nos anos setenta, com o surgimento das primeiras milícias que operavam no tráfico de drogas; cresceu ao ponto de ter originado o comando vermelho nos anos oitenta, e a partir daí, encosta a classe média no canto da parede com uma AR-15 apontada para o aparelho do estado, arma essa que foi conseguida graças às brechas deixadas pela falência moral do estado.
Por um lado, o crime organizado deu origem a um ambiente de paz com ameaças silenciosas. Os muitos grupos que atuam no tráfico possuem uma espécie de aliança entre si (RAFAEL, A. At. ALCEU - v.2 - n.3 - p. 166 a 179 - jul./dez. 2001); são movidos pela amizade e também por uma espécie de ética semelhante a existente inter-órgãos estatais. Sua maneira hierarquizada de organização se assemelha, em muitos aspectos, ao do aparelho estatal. “Para a felicidade do leitor, não vou expor aqui essas semelhanças, basta que continuemos entendendo da maneira como é de praxe: de que ali existe um poder paralelo.”
Esse canalha pode ser uma espécie de alterego muito qualificado. Meu outro “eu”, que não necessariamente chega a pensar de modo inverso, mas prioriza a seguinte questão: como qualificamos a nossa relação com o tráfico de drogas da nossa cidade?? E nossas áreas, nossos esquemas?? E ainda vou mais longe... Se é uma verdade absoluta que, nós da classe média, somos os verdadeiros financiadores do tráfico graças à enorme quantidade do nosso consumo, então porque tanta indignação contra uma ordem social regida por eles?? Nem posso me considerar um careta depois de acabar de curtir um Barato.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Toda mulher deveria se prostituir um dia


Aviso às mulheres que lerem este texto que, antes de se deixarem envolver pela perplexidade do seu tema, que o leiam até o final. Digo que toda mulher deveria se prostituir um pouco na vida, pois seria um belo início de carreira – que como toda carreira, oferece consigo o seu aprendizado - para as coisas mais simples da vida na idade adulta. Coisas como saber diferenciar o sexo do amor. Foi na casa dos prazeres onde a melhor das professoras me ensinou em teoria e prática a diferença entre estes dois conceitos que mais parecem dois corpos a ocupar um mesmo espaço numa dimensão pequena que é a cabeça de muitas mulheres do nosso tempo. Essa professora tem nome e é de família; abraçou o ofício por corresponder espontaneamente ao acaso em que este lhes foi oferecido. Agiu por vontade própria e, através deste ofício, conseguiu pagar a sua faculdade de publicidade. Hoje já deve estar formada e seu apelido é Cris.
Enquanto estive no seu recinto profissional – contando cinco a seis visitações, todas para ver Cris – situado no bairro da encruzilhada, foi quando aprendi as melhores lições de amor e sexo da minha vida. Ela definia o sexo como um instinto, e como todos os outros instintos, impulsiona a espécie humana para a sua sobrevivência. Nada mais cientificamente defendido pelas ciências biológicas no passado. Mas Cris ia além: dizia ela que o sexo não deveria ser proibido quando uma pessoa desejasse a outra, pois aquele momento seria o momento em que duas pessoas mais poderiam se amar na vida. Era o momento de gozar enquanto milhões de pensamentos poderiam vir à cabeça: “como é bom estar com você agora”, “todos o meus amores idealizados não são nada comparados ao que eu sinto por você agora”. Lógico que isso não acontece com freqüência, considerando o seu ofício – nem conosco acontece, quem dirá com ela. Mas ela sempre dizia que, transando com um cara e outro, havia momentos em que um calor subia com alguns caras que acabavam gostando dela depois. Caras como eu, que amei e fui amado por ela, e só tô sem ela agora porque era um merdinha desempregado na época, que não podia tirá-la daquele lugar. Hoje ela já achou quem a tirasse... espero que esteja feliz com ele onde quer que esteja. Mas voltando para as lições, a outra era sobre o amor. Dizia ela que o “amor é uma palavra inventada para vender livros de romance no século 19”. Nada mais sábio para se dizer a respeito de algo que nos engana o tempo inteiro na contemporaneidade dos amores neuróticos... eu te amo Cris. O amor realmente é vago até na sua definição filológica; tudo e nada ao mesmo tempo é amor. Amor e ódio como sendo a mesma coisa... como pode isso??? Vivemos a ilusão do amor em nossas cabeças, por isso nos frustramos a cada novo relacionamento que começamos e terminamos quando antes pensávamos que era impossível. Amores neuróticos de Woody Allen é o que eu aprendo no meu dia-a-dia convivendo e me apaixonando por mulheres que dizem não saber o que querem. Elas não sabem o que querem, mas eu sei o que elas não querem: elas não querem a mim que sou um cara ruim de papo e nem tampouco malhado e ‘bombado’. Mas se elas só querem o meu oposto, como poderão elas me conhecer? Simplesmente não poderão, pois não permitem isso. Negam o sexo que Cris outra hora falou que não se deveria negar. Pobres garotas que não passaram pela escola de Cris. Pobre de mim que, depois de ter conhecido Cris, ainda seja capaz de sofrer por essas garotas.
Também não posso me esquecer de Tio-avô Rildo, grande comunista da geração dos anos 50 e que, ao lado de Gregório Bezerra, fundou vários sindicatos na zona rural Pernambucana. Grande advogado idealista, foi também um sujeito romântico, desses que sonharam até a morte com um mundo mais justo e igualitário. Mas não é sobre esse romantismo que eu quero falar. O maior gesto de amor foi realizado por ele quando Casou-se com Tia Rosilda. Tio Rildo a tirou da zona e a colocou num curso de arte-culinária, coisa que ela sempre sonhara. Hoje Tio Rildo está morto e tia Rosilda está viva, contando sobre o quando ainda ama aquele homem até na memória e sobre o quanto foi mágico tê-lo conhecido na zona. Podemos chamar isso de amor de verdade?? Lógico que sim. Muito mais do que muitas mulheres por aí que pensam que amam, mas amanhã podem estar sem ninguém. Também não devemos jamais subjugar o valor de algumas profissionais do sexo, pois elas têm muito a ensinar aos homem, e, principalmente, às mulheres.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Obrigado Michael


Aí vai um momento de grande emoção para mim... Morreu ontem o maior fenômeno da música pop mundial: Michael Jackson. Estou chorando nesse momento, e não sei nem direito por onde começar a ladainha. Bom, primeiramente, ele o maior recordista em venda de discos. Seu álbum “Thriler” até hoje é considerado o mais vendido da história, seu recorde de um milhão cópias vendidas nunca foi superado por nenhum outro artista. Qualquer garoto pode testemunhar isso, basta gostar de comprar discos vinis em sebos – como eu gostava de fazer até um tempo atrás – e perceber que o álbum está disponível em todos os acervos, cada um contendo mais de uma cópia. Lembro que é da mão de consumidores não muitos distantes que esse material é fornecido aos ambulantes. Sua capa, assim como a do álbum “Bad”, contém o Michael que estará sempre estampado em nossas memórias, com suas roupas, seu brilho, suas purpurinas, seu sorriso de menino ingênuo, tudo isso associado às suas músicas e às coreografias que Michael encabeçava ao lado de grandes dançarinos.
Partindo pra linguagem dos sentimentos pessoais, digo que Michael significou muito mais para mim. Foi meu grande ídolo, meu herói, aquele que eu, quando criança, sonhava em ser quando crescer – depois do Van Damme, lógico. Foi uma explosão elétrica de emoção assistir ao seu filme de pouco sucesso, “Moonwalker”, aos sete anos de idade. Não acreditei no que vi, era demais para os estímulos visuais de uma criança de imaginação igual a minha (que ele nunca tivesse sabido disso, nem do meu endereço); e foi menos ainda quando joguei o jogo no Master System por um ano até conseguir zerar – posso dizer seguramente que foram os momentos mais felizes da minha vida. Também assisti ao show de Michael no Brasil pela televisão e sinto muito inveja da minha tia de consideração, Solange, por ter sido ela a estar presente naquele show. Também assisti à mini-série “os Jackson” pela televisão, e por isso também fui testemunho de fatos marcantes da vida de Michael. Sem falar do especial que a rede manchete transmitiu na época do show de Michael no Brasil; especial este que contou com a participação de Steven Spielberg e Macaulay Culkin. Ah, e como me arrepiei a cada momento em que ouvi “Dangerous” deitado na rede e observando atentamente cada detalhe da capa do álbum. Michael era realmente um Deus para mim; nunca poderia imaginar, naquela época, que um dia seria testemunha da sua morte, muito menos dos seus escândalos. Ele estava além disso. Era imortal. Sinto que tenho uma ligação simbiótica com Michael Jackson. Também pudera, o ano do meu nascimento foi também o ano da explosão do fenômeno Thriler.
Seus escândalos me fizeram enxergar um pouco de repulsa e horror na sua pessoa. Mas assim é o amor: sempre caminhando lado a lado com o ódio, pois são no fundo, uma coisa só. Sua imagem de Deus não existia mais para mim, porém, não me desinteressei pela verdade por trás dos fatos, e esta só me fez gostar dele de outra forma: sintia compaixão por ele; analisava os fatos da sua vida difícil (com as lembranças da mini-séria, fica mais fácil) e na medida em que o desprezava, também o admirava por saber que apesar de tudo isso, ele conseguiu chegar no topo.
Sua voz agora silenciou, bem na hora em que ele se preparava para um retorno triunfante: 50 shows agendados na Inglaterra e na Europa, todos com ingressos já esgotados. Mas assim como foram com outros ídolos da geração dos anos 50 pra cá, a morte é apenas um renascimento para a eternidade. A eternidade na memória das próximas gerações de jovens cantores e curiosos, aqueles que imortalizam os ídolos – haja pegar no pé deles. Sem mais lorotas sentimentais, eis que termino estas palavras com um agradecimento do fundo do meu coração: Obrigado Michael! Estejas em paz aonde estiveres!!

terça-feira, 23 de junho de 2009

A juventude espontânea

A maior graça que a juventude pode ter é sem dúvida a espontaneidade. O desejo de abraçar o mundo associado seguido de uma busca compulsiva por identificação – através da comunicação plural, mesmo sem tanto cuidado com as besteiras que fala – é o seu traço mais charmoso. Os registros culturais dessa fase de emancipação do homem têm como figura clássica o office-boy. Este jovem era capaz de encantar a todos os setores da organização não somente pelo seu esforço para ganhar uns trocados como também pelo seu interesse em desvendar o mundo existente por trás daquela cultura - o fabuloso universo dos adultos e seus modos de relação. Mas aí eu pergunto: a quantas andam essa espontaneidade? O que dizer dos jovens de classe média (e todas as suas variações que, juntas, compõem o maior quadro sociológico da juventude brasileira) que saem pela noite atrás de um entorpecente ou simplesmente de uma “ficada”? Existe beleza nesse quadro? Essa última pergunta fica a pá da preferência artística de cada um.

domingo, 12 de abril de 2009

Os Idiotas


No ano de 1978, numa entrevista com o jornalista Otto Lara Resende, o nosso saudoso cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues fez uma das suas mais brilhantes profecias: A revolução dos idiotas. Disse ele que os idiotas no Brasil iriam se recolher de suas minorias insignificantes e se tornariam maioria em nossa gloriosa cultura nacional, ocupando grande visibilidade na mídia e no cotidiano, e com isso, exercendo maiores influencias bestiais na nossa sociedade. Uma matéria feita pela equipe do excelente programa Documento Especial feita em 1990 ilustra bem a concretização dessa profecia. Vale a pena conferir não só pelo excelente resultado final dessa matéria, como também, pela genialidade que foi esse programa, uma especíe de globo repórter, só que mais independente e ousado. Aos interessados, está disponível no link: http://www.youtube.com/results?search_type=&search_query=documento+especial+a+revolu%C3%A7%C3%A3o+dos+idiotas&aq=f
O que nosso “Reacionário” se referio como idiotice nacional, na verdade, é um fenômeno internacional e têm profundas raízes no modo de vida americado: o americanway of life. E por falar nele, um grande nome das artes plásticas e da contracultura americana dos anos 60 - Andy Warhlol – também profetizou uma verdade atual: “no futuro, toda pessoa comum terá os seus quinze minutos de fama”. Tal profecia se concretizou como uma meia-verdade, pois os quinze minutos de fama não vêm a ser um dieito, mas um sonho possível a todos. Os modos mais comumente usados para se alcançar essa fama é que representam os maiores sintomas da idiotice. Permitam-me assinalar alguns:
1 – O principal critério para uma pessoa ter alguma visibilidade na mídia televisiva e virtual passou a ser a imagem. O telespectador não têm demonstrado muito interesse por conteúdos informativos quando a proposta das programações se voltam mais para o entretenimento. O ato de se ligar uma televisão consiste num ritual de ralaxamento, e nada melhor para se alcançar tal objetivo do que contemplar uma bunda imensa ou uma montanha de músculos perfeitamente desenhados na tela do computador ou da televisão. As celebridades mais cobiçadas pela mídia são pessoas fisicamente bem desenhadas, muitas delas sem nenhum trabalho intelectual ou artístico anterior, elementos que antes eram previlégios de pessoas bastante influentes no Brasil. Enquanto escrevo essas palavras, muitas pessoas estão investindo nas suas imagens enquanto sonham entrar no Big Brother ou pretendam postar vídeos e fotos na internet seguindo de exectativas de grande acessibilidade dos internautas. Não devemos excluir desse aspecto, o comportamento dos jovens nas baladas noturnas: pouca conversa, muito alcool seguidos de outras drogas e acima de tudo... a exposição de sua imagem ao público.
2 – A explosão da violência nas grandes metrópoles brasileiras parte de dois pressupostos: a expansão das favelas – bem como do desemprego e da precariedade nas condições de vida que essas pessoas passam a levar – e as oportunidades oferecidas por milícias que atuam nas milícias do tráfico. O esse segundo é o mais influente. Dentre as oportunidades oferecidas, a que mais atrai é, sem dúvida, o status alcaçado alcançado pelos bandidos, tanto na mídia televisiva quanto nas comunidades em que atuam. Desde cedo, crianças dessas comunidades sonham em serem bandidos e poder mandar geral. Tal status pode se manifestar identitariamente de maneira individual e grupal, como é o caso das torcidas organizadas nos estádios de futebol. Sobre a violência, devo acrescentar que, de um modo geral, o valor da vida se banalizou; isso é diariamente reforçado pela ineficiencia do código penal brasileiro, pois do ponto de vista da lei, um criminoso não só tem direito a sua liberdade como goza de previlégios oferecidos pelo estado.
3 – No terceiro ponto a assinalar a fama se desloca da pessoa em si e ganha projeção em líderes políticos. É o caso do nosso presidente Lula e dos seus seguidores, que ganham mais visibilidade na mídia e na opinião pública. A fama que faz esses políticos não é almejada por todas as pessoas comuns, mas servem como depositária de esperanças de melhoria na vida de muitas pessoas, uma vez que a democracia brasileira se apresenta como complexa para a compreensão do senso comum. Os elementos que compõem essa fama surgem da identidade do grande povão brasileiro, formado por uma maioria de analfabetos, sem segundo grau completo e sem diplomas universitários. Muitos sonham e tentam entrar na política, fenômeno esse que vêm sendo reforçado pela ascenção de um simples torneiro mecânico. A triste realidade desse aspecto da ibecilidade nacional é de que a ética dos políticos é subjugada em dentrimento das projeções dos seus discursos messiânicos na mentalidade das pessoas. As praticas corruptas são veladas e a verdadeira realidade que assola a população (altos impostos, baixos salários e irregularidade no serviço público) não são esclarecidos quanto às suas reais causas.
Minha proposta com esse texto não foi de diagnosticar por completo a idiotice do povo brasileiro; portanto, se algum sintoma foi esquicido, saibam que ele não foi ignorado. No mais, encerro minhas palavras dizendo que ser idiota tem o seu lado bom caso os objetivos por ela traçados possam ser alcançados: podemos viver gozar de previlégios oferecidos pela fama disponível a muitos desde que não seja através da violência nem da falta de escrúpolos. Podemos construir uma fama através da dignidade e do uso da inteligência presenteada por Deus. Essa, ao meu ver, é muito mais saudável.