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segunda-feira, 31 de maio de 2010

O tempo existencial e Norma Bengell


Ontem vivi uma experiência quase psicótica, de desejar romper friamente com a realidade e me entregar de vez ao mundo dos sonhos. Não foi devido a nenhum sentimento político ou social; foi mais existencial mesmo, dessas em que a função do tempo sobre nós, mostrando o início e o fim das coisas, caiu como uma tempestade sobre a minha consciência. Permitam-me explicar melhor, depois de cair na gandaia ontem, cheguei bêbado em casa, fui dormir e tive o seguinte sonho: “Estávamos todos reunidos em um momento de confraternização, eu e a minha família toda da geração que me precede - só que todos estavam mais jovens, com aparência física de 25 a 30 anos. Quem estava presente nesta festa, não sei por qual motivo, era Norma Bengell, musa do cinema, da música e do teatro brasileiro dos anos 60. Conversei bastante com ela, não me lembro qual assunto, me deixei derramar no seu olhar hipnotizante e me derreti de paixão como uma bola de sorvete no calor da praia de boa viagem.”


Até aí tudo bem, pois enquanto sonho tudo era permitido já que não existem barreiras lógicas, éticas e morais para o nosso inconsciente. Porém, ao acordar, o peso da realidade me fez cair uma dúvida inquietante: “como estará Noma Bengell hoje em dia”? Vale ressaltar que a Norma Bengell que apareceu nos meus sonhos se encontrava no mesmo estado de conservação da Norma Bengell de Noite Vazia – excelente filme de 1964 dirigido pelo saudoso Walter Hugo Khouri. Não hesitei... Pulei da cama ainda sobre efeito do uísque de algumas horas atrás e corri para o computador para procurar na internet algum registro atual de Norma Bengell. Encontrei uma entrevista com ela feita por Antônio Abujamra no seu programa “provocações”, e adivinhem... quase caí de costas. Norma estava acabada, destroçada, desfigurada pelo tempo. Nem de longe lembrava aquela Norma de Noite Vazia, ou de “o pagador de promessas”, outro filme inesquecível dirigido por Anselmo Duarte em 1962. Pra vocês terem uma idéia, nessa época, Norma chegou até a ser comparada com Brigitte Bardot. Recentemente, ela atuou no programa “Toma lá, dá cá”, no papel de Deise, uma moradora sapatão do edifício Jambalaya.

Mas, voltemos ao surto. Depois de quase cair para trás ao ver Norma Benguell hoje em dia, novamente me ocorreu um certo pensamento que em muitos momentos da minha vida me atordoa: “Somos seres humanos e vivemos sob a sensação de dominarmos a natureza. Acreditamos que temos o total controle de nossas vidas nas mãos, que temos sempre planos para o amanhã e temos métodos, instrumentos... enfim... capacidade suficiente para sermos senhores da nossas vidas”. Tal sensação também se traduz em momentos de alegria que temos com nossos amigos, quando o mundo parece parar de girar para dar lugar ao eterno. É quando comunicamos aos nossos amigos: “vamos marca outro encontro desses”, “vamos ser sempre amigos”. São momentos em que ignoramos que o Tempo, senhor do início e do fim e de todas as mudanças que ocorrem na natureza, está agindo de maneira fria e impiedosa sobre nós. Não me refiro ao tempo cronológico, mas ao tempo existencial, aquele que mostra que o agora já não é mais, que tudo está correndo em direção ao fim. Tal realidade se revela de forma cruel, mostrando que isso existe, quando procuramos viver cada dia tentando esquecer. Creio que cheguei a esta sensação por assistir a muitos filmes antigos e por conseqüência testemunhar o ontem e o hoje sobre as coisas. O medo da morte, de não saber o que existe depois dela e de saber que ela se aproxima desde quando nascemos estão constantemente presentes neste complexo sensacional. Me conforta a perspectiva de Norma que vive cada momento como se fosse o último, sem tantas preocupações com o futuro. Norma foi uma mulher que viveu intensamente uma vida de grandes amores e grandes lutas, e nunca perdeu a sua vaidade e feminilidade que a mocidade poderia ter tirado com o peso do tempo existencial.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O seu corpo é uma nuvem (poesia)


Autor: Mateus Barros

Tão longe para com as mãos tocar
Tão perfeita em suas formas
Para com a vista se adimirar
Seu corpo é como uma nuvem
Que escurece num céu de inverno
E brilha no sol do verão
O observador contempla com os olhos
E com a força da imaginação

Uma nuvem se funde com outra
Um corpo que agora está em outro
Agora não é mais um e outro
São apenas um
Mas se uma próxima nuvem vier
Que chova

A nuvem parece macia
Tal qual sua pele sedosa
Tamanha é a semelhança
Só falta a nuvem ter olhos e cabêlos
Se ao por do sol vejo a nuvem rosada
Nela sinto o seu cheiro

Se eu me sinto sozinho
Sem um amor para fazer
Dos meus pensamentos, um lugar
Vejo uma nuvem sem rosto
Milhares de corpor bonitos
Porém, todos iguais
Vejo nuvens no céu a passar

E se um dia eu me der conta
Que meu amor não está mais neste mundo
Quero olhar para o céu
Numa noite fria de inverno
Quero que todas as nuvens chovam sobre mim
Até que um dia, além das nuvens, eu possa te encontrar

quarta-feira, 14 de abril de 2010

O caso Adimar, uma frouxidão no sistema penal Brasileiro



'Não consigo parar de matar', diz assassino em série em Goiás como assim publicou a reportagem da folha de são Paulo na internet. O furo de ontem foi sobre a decisão judicial pela liberdade de Adimar Jesus da Silva, pedreiro condenado em 2005 a 14 anos de prisão por crime de pedofilia. Em dezembro do ano passado, Adimar foi beneficiado com a progressão da pena, podendo responder em liberdade. Mal foi solto e o monstro cometeu seis crimes contra menores de idade: na tentativa de seduzi-los, ele conduz as vitimas para um terreno baldio e os mata a pauladas. A decisão judicial pela progressão da pena foi concebida pelo Juíz Luís Carlos de Miranda, observando que o condenado havia alcançado as metas comportamentais que a pena previa: bom comportamento e senso de responsabilidade. O mais interessante a se observar é que o mesmo relatório judicial continha o diagnóstico de Psicopata, antes concebido por exames nas áreas de psiquiatria forense e criminologia ao qual o condenado fora submetido.


O caso Adimar, o monstro de Luziânia, foi apenas mais um exemplo das falhas ocorridas no sistema penal Brasileiro. Isso sem falar nas brechas existentes no código penal que como muitos já sabem, existem para que criminosos das elites possam se beneficiar. Mas não vamos falar disto, pois o caso de Adimar vai além: trata-se de uma frouxidão nas relações existentes entre a lei e seus instrumentos de aplicação – neste caso, a psiquiatria forense e a criminologia – e não exatamente nas leis em si. O psiquiatra forense Guido Palomba disse na reportagem do jornal nacional de 12 de abril de 2010 que ao condenado deveria se aplicar uma medida de segurança, onde o preso seria completamente isolado, devendo retornar à sociedade somente quando a periculosidade fosse cessada. A observação sobre o bom comportamento do preso foi equivocada ignorando completamente o diagnóstico de psicopata quando este estava incluso no relatório do juiz. O fato é que um psicopata possui a capacidade de fazer o jogo dissimulado apenas para alcançar seus objetivos. Ou seja, munido de sua inteligência e sensação de ser poderosamente superior às pessoas a sua volta, Adimar simulou todo o bom comportamento e consciência que a pena estimava, coisa que o sistema prisional não prevera. É óbvio que a lei falhou neste ponto, mas devemos refletir sobre isso. Penso que a justiça como um poder supremo, deveria aperfeiçoar o seu modo de análise das pessoas e dos fatos, pois do mesmo modo como a progressão não deveria ser dada a Adimar, muitos são condenados injustamente no Brasil. Uma medida a ser tomada é adotar um sistema rígido de vigilância para ex-presidiários e pessoas em regime aberto e semi-aberto. Gilmar Mendes falou sobre uma certa pulseira eletrônica usada para monitorar os passos dessas pessoas, permitindo que as autoridades ajam a um passo a frente do suposto criminoso. É o regime de vigilância que Foucault tanto teorizava, como sendo algo mais econômico para o estado. A tecnologia está a serviço disso. O regime super fechado deveria prevalecer para criminosos da periculosidade de Adimar e outros que não necessariamente portadores de alguma patologia, como os grandes traficantes de drogas, estupradores, seqüestradores, torturadores e assassinos. A eles, a prisão perpétua, outra medida discplinar que há muito já deveria ter sido adotada no Brasil.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Cantarolando o Autismo



Falar sobre autismo é semelhante a falar sobre uma pessoa que não se sente bem em um ambiente onde não foi devidamente acolhida. As pessoas no ambiente não notam a sua presença, não se interessam pelos seus assuntos, e por isso, a existência da pessoa naquele devido momento da experiência passa a estar comprometida. Essa mesma pessoa também não pode fazer nada para mudar o desejo do outro que a acompanhou até esse lugar e do qual ela se encontra dependente para voltar para casa. O que fazer numa situação dessas? Uma fuga para a imaginação parece ser uma boa alternativa para suportar a angústia de permanecer forçadamente naquele ambiente inóspito: Olhar para os lados ou para lugar nenhum, desaperceber cada vez mais os estímulos externos e se deixar viajar nos pensamentos, lembrar-se de uma música ou de um filme. Tudo vai bem até que essa viagem interior é interrompida por alguém... alguma voz surgiu bruscamente no lado de fora. Alguém comenta algo com você, não se sabe ao certo o quê. O conteúdo da sua fala deste alguém não é compreendido, muito menos o motivo que poderia ter levado o emissor a cometê-lo: promover uma integração com o grupo de pessoas que está pouco incomodado com a sua apatia. A situação causa mal-estar e tudo o que se escuta é ruído - que de alguma forma o incomodou por ter de lhe arrastar tão violentamente daquela agradável sensação de meditação. O que fazer nessa hora? Minha boa educação cristã me diz que eu tenho que responder a ele. Porém, lá no fundo do meu peito não havia mais interesse por aquele ambiente, nem pelos assuntos, nem pelas pessoas e muito menos por esse que me fala. Eu havia acabado de encontrar um lugar agradável num mundo que eu mesmo construí, que me permitiu ser quem eu quisesse e como eu quisesse ser.
É mais ou menos assim que funciona a cabeça de uma criança ou um adulto autista, só que num estado, logicamente, muito mais grave. Deixa que eu explique. A criança que se tornou autista percebeu a inospitalidade do mundo numa idade ainda que muito precoce. Winnicot(1976) aponta para a incidência deste ocorrido ainda na fase de gestação, onde a criança já não era desejada. Sendo assim, ela nunca teve um lugar no mundo reservado para ela, onde ela pudesse se desenvolver e dar sentido às histórias das pessoas que a cercam. O mundo lhes foi negado num momento em que a criança precisava dele ainda para descobrir as suas emoções. As emoções são mecanismos psíquicos fundamentais para a construção do eu, para a formação do sujeito como uma unidade no mundo. Sem esta unidade, sem este EU, a criança é uma massa caótica (parafraseando Winnicot), um espaço vazio. E voltando para as emoções que antecedem a formação deste eu, elas só são possíveis na presença de um outro. À partir do momento que o outro permite, nega, oferece e toma, a criança apresenta reações como o choro ou o sorriso. Conceitos como o Holding ou o Handling (Winnicot, 1962) é que vão estabelecer a qualidade na maneira como as emoções se desenvolvem na criança. Mas por outro lado, como as emoções se desenvolverão quando o outro se ausenta? Até então, a única referência de mundo que essa massa caótica chamada criança possui de mundo é o outro. Se o outro não existe, o mundo para a criança também não existe.
Para Winnicot, a Criatividade é o mecanismo existente entre o ser e o mundo através do qual o mundo legitimará cada vez mais a existência deste ser. É outro passo para a construção do Eu: a Criatividade. O que eu faço deve de alguma forma ou de outra ter algum efeito no mundo, só assim eu percebo que dentro do meu corpo existe algo que dá sentido ao fato deu estar habitado neste. O sujeito se reconhece e reconhece o mundo pela sua criatividade; assim sendo, podemos entender a criatividade como um mecanismo de sobrevivência no mundo. E se o mundo se torna inexistente para o sujeito, como na situação anteriormente citada? Como fica essa sobrevivência? A resposta é a Criatividade. Só que ao contrário do saudável, essa sobrevivência ocorrerá em outro plano: através da criação de um mundo próprio, aonde a sua criatividade possa ser reconhecida. Tom Cruise no filme Rain Man (1989) até explica o autismo dessa maneira: “uma pessoa que vive num mundo só dela”.
É uma interpretação mais verdadeira e até mais saudável do autismo, uma pessoa que optou por um modo de sobrevivência no mundo. Pena que o preço que se paga do essa opção é um pouco alto, pois o mundo existe materialmente e a criança autista sempre se esbarra nele. Alguns conseguem se adequar através de rituais bem específicos, mas como o mundo acontece a cada instante, eles acabam por se esbarrarem em sua imprevisibilidade. O mundo tem as suas leis, e o autista não as reconhece. Segundo F. Tustin (1964), a criança autista percebe o mundo(ambiente) como sendo uma extensão de seu corpo. Assim sendo, é doloroso para ela esbarrar em seu próprio corpo, percebendo que este possui falhas em seu funcionamento.
Como consideração final sobre o autismo, posso dizer que não é só a criança que não compreende as leis do mundo; o mundo também não compreende a criança autista. Não consegue acolher essa criança no seu estado já cronificado. Também pudera, não é possível de se estabelecer um diálogo convencional com ela. Os educadores sofrem com o seu comportamento de quebrar as coisas, de urinar e fazer fezes sem o menor aviso prévio. A sensação de estranheza que atravessa o autista também atravessa as pessoas que estão diante delas e muitos sentimentos – tal qual a rejeição precoce por parte da mãe que originou o transtorno. Semana passada assisti ao filme “minha esperança é vocÊ”(foto), dirigido por John Cassavetes em 1962 - Uma raridade: um filme desta época registrando o tratamento com crianças excepcionais. Neste filme, o pai do protagonista autista fala o seguinte quando a sua esposa lhe perguntara se ele não sente nada pelo filho: “sinto sim... sinto vontade de abandoná-lo... minha vida era cheia de planos, e hoje, eu gastei tudo por ele não tenho mais nada”. Não podemos culpar este pobre personagem pelo que ele sente, mas também não podemos tirá-lo de sua responsabilidade, pois este sentimento é derivado do que a criança também sente por habitar nesse mundo. Os profissionais que trabalham com este público também precisam superar este sentimento de rejeição. É um trabalho de duplo esforço. Uma vez que o sentimento de rejeição é afastando, criamos espaços livres em nossa razão para alcançar o mundo da criança autista – reconhecer suas motivações, suas afinidades. Quando a criança reconhece que existe um mundo que reconhece os seus desejos, cria-se a possibilidade desta direcionar a sua criatividade para este novo mundo. O afeto é a grande chave para o sucesso deste profissional.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Ensaio sobre o amor trágico



(passei a virada de ano com uma leve sensação de roedeira, mas agredeço muito à pessoa/motivo da dor por ter possibilitado a criação desta pequena reflexão histórica)




O amor suscinta a aparição de algumas tragédias: ele pode nascer a partir delas ou pode terminar com elas. Me refiro à paixão amorosa, aquela que pode apontar para um outro ou mesmo para si próprio, como foi o caso de Narciso, cuja tragédia recaiu sobre a simples contemplação da sua imagem refletida sobre a água . Um fenômeno antigo que faz parte da história do amor e que a humanidade ainda não aparendeu a lidar é o amor não correspondido – creio até que este pode ter se originado a partir do neolítico, quando o homem já deixara de usar a força física para adiquirir suas mulheres tal como caçavam animais. Na medida em que a liguagem ganha espaço na formação cultural das nossas cabeças, o homo sapiens sapiens estende a sua massa encefálica para a criação de sentimentos. Logo, os sentimentos passam também a fazer parte do sexo, associando-se a ele através de uma lei regida pelo gostar-não gostar, sentir-não sentir. Isto atravessou a história da humanidade e se configurou de acordo com as diversas transformações sofridas pela sociedade – me refiro aqui à sociedade ocidental, já que não tenho tanta propridade pra falar das culturas do lado de lá. Antes do advento do cristianismo como a religião mais dominante da cultura ocidental, no período que data a antiguidade classica – a da grecia antiga – o amor existia para o homem sendo então excludente as mulheres, que não tinham voz e aparição diante da sociedade que compunham a cidade-estado; só que esse sentimento era previlégio de poucos e era muito pouco explorado diante da representação social almeijada pelo homem no espaço público dessas cidades-estado. Foi um periodo de surgimento da cultura, e com ela, do homem político, este que tinha vez, voz e existencia diante de tal ambiente biológico. Minimamente é que as expressões mais sentimentais surgiam através da arte, como pode ser conferido nas tragédias gregas dos tempos de péricles. Avançando um pouco na linha do tempo, temos a idade média, onde uma nova moral foi imposta pelo poder absoluto da igreja. Nesse período, a união entre homens e mulheres se dava através da união sagrada do matrimônio, que também era um previlégio de poucos, considerando que a aristocracia dos feudos era quem tinha a dádiva do sagrado. Aos pobres restavam o amor, mas este logo desaparecia com a praga da peste bubônica. Avançando mais um pouco, chegamos na modernidade; extingue-se o regime feudal e entra em cena a burguesia, dando uma grande expanção à cultura com as mudanças que ela trouxe à sociedade. A burguesia criou o capitalismo, e junto com ele, uma nova perpectiva: a individualidade. Esse fenômeno foi inédito na história da humanidade, pois nunca o homem foi tão dono dos sua vontade e tão responsável pelos seus desejos. Tal sensação de liberdade e desejo – aí uma faceta da paixão – levou o homem a avançar nas navegações, a fundar novas etnias e criar uma doutrina fascinante como o Iluminismo, que mais tarde iria dar origem a novos paradigmas políticos, científicos e filosóficos. Na literatura, surgiram grandes romances, de amores impossíveis acontecendo no cerco da burguesia e tragédias decorrentes destes: William Sheakespeare, Leon Tolstoi, Jane Austen, Machado de Assis... Ah, foram tantos. O movimento Romantismo foi o principal responsável pela elevação do sentimento em dentrimento da razão. Isso foi inspirando pensadores como Rosseau, que tratava de política com um viés bastante sentimental , e Nietzche, cujo pensamento criticou o racionalismo puro e originou uma filosofia inteiramente voltada para o homem. Cabe considerar que, até um certo período, a união entre homens e mulheres se baseavam em acordos comerciais entre as famílias da burguesia, dando pouca margem ao sentimento. Os pais casavam os filhos, e a tragédia do amor não correspondido se manifestava em forma de fantasias silenciosa; daí a fonte de inspíração para grandes romances. Chegando no século XX, o homem se esbarra na pós-modernidade, que nada mais é do que a modernidade apresentando consequencias verdadeiramente trágicas ao homem; uma espécie de falha da modernidade. A individualidade chega ao extremo, desta vez com o apareto tecnológico e com as revoluções na cultura, no comportamento dos jovens. O homem pós-moderno tem seu próprio computador, sua própria televisão, tudo tão próprio a excluir a sua identidade, que se encontra prejudicada pela imensa gama de informações antagônicas que recebe. O homem pós-moderno deseja e não deseja ao mesmo tempo, não se reconhece diante das suas escolhas, sofre crises existencias, depressões, consumo de drogas e outros transtornos psíquicos. Para cada mal, existe um remédio que deve ser consumido - o consumo é a lei, o objetivo maior do homem pós-moderno. O amor também se tornou consumível; ou seja, ele pode se apaixonar por quem ele quiser, basta selecionar as características no outro que mais se adequem ao seu gosto. O problema basta ser a outra pessoa querer, corresponder a este amor – eis a tragédia amorosa da pós modernidade. Pode-se dizer que se ama de uma forma individual, tal como os objetos da pós-modernidade. As pessoas vivem seus universos particulares com seus conflitos individuais os quais não publicam nem para a mãe – nunca a psicoterapia foi tão requisitada. Por fim, posso terminar esse ensaio criticando um pouco esse modelo de amos trágico: O amor não correnpondido representa uma tragédia, mas não concebe nenhum dos personagens como vítima, pois se ama da maneira mais individial possível. E por que não dizer egoísta?

sábado, 7 de novembro de 2009

Ensaio de Psicodelia Crítica... um pequeno lixo textual


Aí vai o recado de um certo Nélio Narigudo, um sujeito indecente que diante de uma tentativa frustrada de ganhar a atenção de leitores desocupados da “rede interna”, resolveu publicar essa porcaria:
“Como será que age a carne ante a sensação de medo? Essa pergunta pode ser respondida por alguns grupos de moradores da zona norte do Rio de Janeiro. É que as primeiras semanas do mês de outubro foram marcadas por um retorno às evidencias do quadro da guerra social no rio, esta que teve inicio nos anos setenta, com o surgimento das primeiras milícias que operavam no tráfico de drogas; cresceu ao ponto de ter originado o comando vermelho nos anos oitenta, e a partir daí, encosta a classe média no canto da parede com uma AR-15 apontada para o aparelho do estado, arma essa que foi conseguida graças às brechas deixadas pela falência moral do estado.
Por um lado, o crime organizado deu origem a um ambiente de paz com ameaças silenciosas. Os muitos grupos que atuam no tráfico possuem uma espécie de aliança entre si (RAFAEL, A. At. ALCEU - v.2 - n.3 - p. 166 a 179 - jul./dez. 2001); são movidos pela amizade e também por uma espécie de ética semelhante a existente inter-órgãos estatais. Sua maneira hierarquizada de organização se assemelha, em muitos aspectos, ao do aparelho estatal. “Para a felicidade do leitor, não vou expor aqui essas semelhanças, basta que continuemos entendendo da maneira como é de praxe: de que ali existe um poder paralelo.”
Esse canalha pode ser uma espécie de alterego muito qualificado. Meu outro “eu”, que não necessariamente chega a pensar de modo inverso, mas prioriza a seguinte questão: como qualificamos a nossa relação com o tráfico de drogas da nossa cidade?? E nossas áreas, nossos esquemas?? E ainda vou mais longe... Se é uma verdade absoluta que, nós da classe média, somos os verdadeiros financiadores do tráfico graças à enorme quantidade do nosso consumo, então porque tanta indignação contra uma ordem social regida por eles?? Nem posso me considerar um careta depois de acabar de curtir um Barato.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Toda mulher deveria se prostituir um dia


Aviso às mulheres que lerem este texto que, antes de se deixarem envolver pela perplexidade do seu tema, que o leiam até o final. Digo que toda mulher deveria se prostituir um pouco na vida, pois seria um belo início de carreira – que como toda carreira, oferece consigo o seu aprendizado - para as coisas mais simples da vida na idade adulta. Coisas como saber diferenciar o sexo do amor. Foi na casa dos prazeres onde a melhor das professoras me ensinou em teoria e prática a diferença entre estes dois conceitos que mais parecem dois corpos a ocupar um mesmo espaço numa dimensão pequena que é a cabeça de muitas mulheres do nosso tempo. Essa professora tem nome e é de família; abraçou o ofício por corresponder espontaneamente ao acaso em que este lhes foi oferecido. Agiu por vontade própria e, através deste ofício, conseguiu pagar a sua faculdade de publicidade. Hoje já deve estar formada e seu apelido é Cris.
Enquanto estive no seu recinto profissional – contando cinco a seis visitações, todas para ver Cris – situado no bairro da encruzilhada, foi quando aprendi as melhores lições de amor e sexo da minha vida. Ela definia o sexo como um instinto, e como todos os outros instintos, impulsiona a espécie humana para a sua sobrevivência. Nada mais cientificamente defendido pelas ciências biológicas no passado. Mas Cris ia além: dizia ela que o sexo não deveria ser proibido quando uma pessoa desejasse a outra, pois aquele momento seria o momento em que duas pessoas mais poderiam se amar na vida. Era o momento de gozar enquanto milhões de pensamentos poderiam vir à cabeça: “como é bom estar com você agora”, “todos o meus amores idealizados não são nada comparados ao que eu sinto por você agora”. Lógico que isso não acontece com freqüência, considerando o seu ofício – nem conosco acontece, quem dirá com ela. Mas ela sempre dizia que, transando com um cara e outro, havia momentos em que um calor subia com alguns caras que acabavam gostando dela depois. Caras como eu, que amei e fui amado por ela, e só tô sem ela agora porque era um merdinha desempregado na época, que não podia tirá-la daquele lugar. Hoje ela já achou quem a tirasse... espero que esteja feliz com ele onde quer que esteja. Mas voltando para as lições, a outra era sobre o amor. Dizia ela que o “amor é uma palavra inventada para vender livros de romance no século 19”. Nada mais sábio para se dizer a respeito de algo que nos engana o tempo inteiro na contemporaneidade dos amores neuróticos... eu te amo Cris. O amor realmente é vago até na sua definição filológica; tudo e nada ao mesmo tempo é amor. Amor e ódio como sendo a mesma coisa... como pode isso??? Vivemos a ilusão do amor em nossas cabeças, por isso nos frustramos a cada novo relacionamento que começamos e terminamos quando antes pensávamos que era impossível. Amores neuróticos de Woody Allen é o que eu aprendo no meu dia-a-dia convivendo e me apaixonando por mulheres que dizem não saber o que querem. Elas não sabem o que querem, mas eu sei o que elas não querem: elas não querem a mim que sou um cara ruim de papo e nem tampouco malhado e ‘bombado’. Mas se elas só querem o meu oposto, como poderão elas me conhecer? Simplesmente não poderão, pois não permitem isso. Negam o sexo que Cris outra hora falou que não se deveria negar. Pobres garotas que não passaram pela escola de Cris. Pobre de mim que, depois de ter conhecido Cris, ainda seja capaz de sofrer por essas garotas.
Também não posso me esquecer de Tio-avô Rildo, grande comunista da geração dos anos 50 e que, ao lado de Gregório Bezerra, fundou vários sindicatos na zona rural Pernambucana. Grande advogado idealista, foi também um sujeito romântico, desses que sonharam até a morte com um mundo mais justo e igualitário. Mas não é sobre esse romantismo que eu quero falar. O maior gesto de amor foi realizado por ele quando Casou-se com Tia Rosilda. Tio Rildo a tirou da zona e a colocou num curso de arte-culinária, coisa que ela sempre sonhara. Hoje Tio Rildo está morto e tia Rosilda está viva, contando sobre o quando ainda ama aquele homem até na memória e sobre o quanto foi mágico tê-lo conhecido na zona. Podemos chamar isso de amor de verdade?? Lógico que sim. Muito mais do que muitas mulheres por aí que pensam que amam, mas amanhã podem estar sem ninguém. Também não devemos jamais subjugar o valor de algumas profissionais do sexo, pois elas têm muito a ensinar aos homem, e, principalmente, às mulheres.