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terça-feira, 28 de setembro de 2010

Eleições 2010 - Apenas sobre os presidenciáveis



Cá estou eu novamente me aventurando pela madrugada em mais uma noite de insônia. Por coincidência, ontem foi dia de sambão no Morro da Conceição. Já estou começando a achar que a razão da minha insônia encontra-se nos energéticos que ando tomando misturados com uísque. Mas que bom que seja assim, pois a madrugada é realmente o melhor horário para escrever, tamanho é o grau de intimidade com si próprio que este horário proporciona ao escritor. Era assim com Clarisse Lispector. Mas vamos lá, vou aproveitar pra refletir um pouco sobre as eleições do ano de 2010 mesmo que tardiamente, faltando apenas uma semana para o sufrágio. Começo dizendo que percebo uma semelhança no quadro eleitoral desde a primeira eleição do Pesidente Lula. Como seria este quadro? É o quadro do marketing político. Lógico que isto não é recente, mas parafraseando o atual presidente, “nunca na história deste país” o marketing foi tão decisivo na opinião dos eleitores. É de fazer chorar, pois não há mais debates de idéias e propostas políticas. A candidata Dilma não está nem um pouco preocupada em comparecer ao debate político, pois sua campanha está subsidiada pela figura popular do presidente Lula. Aliás, o povo não sabe das propostas políticas de Dilma; há muitos quem duvidam que ela irá governar. Talvez ela seja apenas uma laranja para que o atual presidente exerça o seu terceiro mandado por debaixo dos panos.


Por outro lado, temos uma fraca oposição representada em primeiro lugar pelos candidatos a presidente José Serra e Marina Silva. O primeiro foi ministro da saúde no governo de Fernando Henrique Cardoso, e poderia usar isto para apontar as mentiras ditas pelo presidente Lula a respeito do atual cenário socioeconômico do país, onde ele atribui a si próprio a responsabilidade pelos principais avanços. As raízes da estabilidade econômica foram plantadas lá atrás no governo de FHC, e Lula soube usar isso muito bem, dando continuidade aos planos traçados pelo presidente anterior. Só que nada de inovador foi feito pelo atual presidente em seus dois mandatos, que ao final, acabou adotando uma postura conservadora e muitas vezes retrógada, quando este resolve voltar atrás dos ideais da democracia, atacando a liberdade de imprensa. O único diferencial apresentado por ele foi a ampliação dos programas sociais, coisa que só foi possível graças à estabilidade econômica. Desde o seu primeiro mandato, percebemos o país caminhando para uma Democracia popular, ou seja, uma forma bem menos evoluída de democracia, onde se conta apenas a opinião da maioria. O reflexo disto pode ser visto na própria corrida eleitoral, onde o presidente pratica descaradamente seu clientelismo, pedindo voto pros fulanos seus amigos enquanto acusa o outro candidato de “aético” porque este protestou contra a violação de sigilo fiscal da sua família. E o direito de protestar, não faz parte dos ideais da democracia? A lei não surge no aqui e agora porque uma maioria decidiu, ela está lá, registrada na constituição. Então porque tornar legítimo as palavras de um presidente? Porque a maioria está com ele?

E Dilma Rouseff? O que as pessoas que vão votar nela sabem sobre ela? Nada. E a culpa por isso é do povo? Não. Mas é o povo a responsabilidade pelo futuro do país. O que eu sei dela é que foi uma revolucionária nos tempos da ditadura, dessas que pegou em arma e executou o sequestro do embaixador americano ao lado do seu Grupo MR8. Fernando Gabeira também fez parte dessa turma, mas ao contrário dela, ele se arrepende e assume uma postura a favor da verdadeira democracia; coisa que não vemos na candidata Dilma – que recentemente quis altear a lei de anistia – e no atual presidente lula - que recentemente defendeu a postura do governo de cuba ao não ceder à greve de fome de um preso político. Me questiono seriamente sobre os valores democráticos dessas figuras. Só espero não ver a nossa estabilidade econômica abalada, pois as resoluções dos problemas mais graves do país como a saúde e a educação dependem disso. Marina Silva tem sido uma forte oponente na disputa eleitoral, mas com toda a sua pose, eu acho que ela se candidataria melhor à santa. E por falar nisso, a população parece que despertou de vez a simpatia por candidatos com histórias humildes, e virou até uma estratégia eleitoral usar a história do candidato mais do que a exposição das suas propostas. Ora essa, e Juscelino Kubitscheck, que ia pra escola descalço em sua cidade no interior de Minas Gerais e mesmo assim priorizou suas ideias iluministas em detrimento da história da sua vida? Por falar em história, quero aproveitar para parabenizar meu tio Rafael Brasil, a quem eu chamo carinhosamente de Faé, pelas postagens publicadas em seu blog. São realmente a minha referência em pensamento político, e a todos eu indico a sua leitura através deste endereço: http://rafaelbrasilfilho.blogspot.com/. Ele é realmente a maior cabeça pensante de toda aquela região do agreste meridional.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O pensamento luz da virada do novo século



Não consigo dormir, por isso resolvi escrever. Passei as últimas três semanas me preparando para uma prova de residência em saúde mental que aconteceu ontem. Terminando a prova, fui extravasar no morro da conceição e lá encontrei uma garota. Não sei se perdi o sono por causa dela ou por causa da prova. Deixa para lá, pois não é sobre isto que quero falar agora. Quero mesmo é falar de um filme que eu assisti pela terceira vez no sábado à noite em que antecedeu a prova – como sempre costumo fazer nas vésperas dos concursos públicos. O filme se chama “ponto de mutação” (“Mindwalk”, no original), é de 1990 e foi levemente adaptado do livro homônimo de Fritjot Capra. É realmente um filme para ver e rever várias vezes devido ao seu conteúdo filosófico; e é muito bom, pois cada vez que você o assiste, a compreensão sobre ele aumenta.



A sinopse é simples, pois se trata de um encontro casual entre um político deprimido, um poeta (amigo do político) e uma cientista norueguesa. O encontro acontece em um cenário belíssimo: um castelo medieval ilhado em algum lugar da França. A maré da ilha está baixa, e de repente, este cenário se torna palco para o mais brilhante diálogo já visto na história do cinema. Diálogo este que se estende por todo o filme, pois não se trata de um simples diálogo - dá até para personifica-lo e percebê-lo como o personagem central do filme. Trata-se de uma de uma verdadeira aula de filosofia, e o melhor, com uma linguagem bastante clara, ao alcance da compreensão dos letrados mais medíocres. Fica até difícil para mim, encontrar as palavras certas para descrever o fenômeno que ocorre nesse filme; mas vamos lá, não custa tentar: ... (pausa)... cada personagem traz uma perspectiva - uma visão de mundo – e um sentimento de acordo com a situação em que se encontram – o político fora derrotado na última eleição à presidência dos estados unidos devido ao seu projeto político que em pouco correspondia com os desejos dos eleitores norte-americanos; o poeta se mudara para França por não se adequar ao estilo de vida maniqueísta dos Estados Unidos; e a cientista entrara em recesso do seu projeto de pesquisa sobre raio laser por perceber que este estava sendo financiado para a construção de armas nucleares. A partir disto, cada um expõe o seu ponto de vista, e aquele que se sobressai é, sem dúvida, o da cientista, por se tratar de um pensamento inaugural do novo século. Chama-se Pensamento Sistêmico, também conhecido como “o novo paradigma da ciência”. Pretendo expô-lo de forma grosseira e resumida no próximo parágrafo, mas antes, deixem-me terminar de falar sobre o filme. É interessante você notar o processo de mudança tanto na perspectiva dos personagens quando no quadro emocional em que se encontravam antes da conversa começar. É uma grande lição de como uma conversa profunda pode mudar a vida das pessoas, mais do que muitos benzodiazepínicos.



Agora vamos ao pensamento sistêmico. Como falei no último parágrafo, trata-se de um novo paradigma, uma nova maneira de perceber e fazer. É também conhecido como o novo paradigma da ciência, e ciência considerando a maior amplitude do seu termo, englobando praticamente todas as áreas do conhecimento humano. Em se tratando de um novo paradigma, ele vêm para tomar o lugar do antigo, pois não há mais espaço para o antigo paradigma nos tempos de hoje, e a cientista está de plantão no filme para citar alguns exemplos catastróficos de aplicações do antigo paradigma na atualidade. O antigo paradigma foi inaugurado por René Descartes, e por isso foi também chamado de paradigma Cartesiano. Ele nos ensinou a estudar, e em seguida, tratar de todas as coisas da natureza e do homem como elementos isolados, desconsiderando a relação que existe entre eles. Como exemplo disto: Eu estou sentado na cadeira; eu sou uma coisa e a cadeira é outra, e por isso, terão de me separar da cadeira se quiserem estudar a cadeira e a mim. Isto era feito a fim de se alcançar a maior profundidade possível acerca daquele objeto. Até certo momento do século XX isso foi muito importante para as descobertas científicas; porém, enquanto epistemologia – uma forma de perceber e agir no mundo que está inscrito em toda a cultura – não se aplicava mais. Precisava-se de uma mudança que pudesse abranger as relações existente entre as coisas na sua epistemologia. Foi daí que surgiu o paradigma sistêmico, baseado na teoria geral dos sistemas. Essa teoria concebe um sistema como uma organização de elementos que está sempre em processo de mudança em sua estrutura. Além dos elementos comporem um sistema, cada um representa em si, pois está em constante inteação com outros sistemas. Isso dá uma idéia de movimento constante, por isso, não devemos entender o sistema como uma estrutura estática, mas sim como um pocesso. As coisas compõem sistemas e também são sistemas... os sistemas se articulam com outros sistemas mudando completamente a configuração inicial de todos os envolvidos. Uma família é um sistema, que está encontato com outros sistemas, como o colégio, o trabalho, o bairro, a sociedade. A árvore não é mais apenas uma árvore sozinha, ela está em contato com a floresta, com os animais que lá habitam, com o homem que lá pisa e com o vento que nela sopra. Assim são os sistemas, cadeias de relações que se encontram em constante movimento. É muita coisa para ser dita em uma postagem, por isso, recomendo a leitura do livro “pensamento sistêmico: O novo paradigma da ciência” de Maria José Esteves de Vasconcellos, ou que assistam ao filme “ponto de mutação”. Aos mais ousados, também seria interessante a leitura de livro de Ponto de mutação Fitjot Capra... Esse eu não li ainda, mas já estou pretendendo.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A ESTAÇÃO FINAL DO TREM (poesia)


Autor: Mateus Barros

Vagões lotados

Pessoas nos convéns

Todos estão à espera

Da estação final do trem


Pessoas sentam ao meu lado

Parados em minha frente estão

Olhos marcados pela história

Mas eu não sei quem são

Na estação eles saltam

Alguns deixarão saudades

Outros partirão na solidão


Este trem chamado vida

Pela trilha do tempo ele percorre

Acelerando e freando

Velocidade inconstante

Paradas bruscas e imprevisíveis

Outras já ansiosamente esperadas

Só este trem que não morre


Na janela olhamos a paisagem

O mundo mostra a sua face

Tão independente da nossa passagem

Ali estão outros passageiros do trem

Sem saber o dia a hora ou a precisão

O que eles sabem é que o trem sempre vem


Já ouvi falar de trens fantasmas

Será que eles existem

Uns dizem que são de arrepiar

Outros que são como este

Onde a viagem continua

Além da estação final


Somos todos passageiros neste trem

Sabemos da estação destino que nos aguarda

Mas a viagem é tão bonita

Com tantos passageiros ilustres

Que esquecemos para onde vamos

Há algo de inexplicável neste trem


Às vezes desejamos chegar logo

Viajamos sem levar bagagens

Sente que valor nenhum esta viagem tem

Outros passageiros já não mais importam

Dá até vontade de saltar do trem


Outros viajam felizes

Satisfeitos apesar dos poréns

Sentem que fizeram da viagem uma obra de arte

Fizeram coisas e amaram alguém

No chão duro do vagão plantou sementes

Seguiram o caminho do bem

Agora podem relaxar e chegar

Na estação final do trem


Esperado ou inesperado

Este trem possui um sistema falho

Ele não avisa

Se vai parar ou se vai continuar

Não sabemos onde e quando

Chegaremos na estação final

Deste trem chamado vida.

* dedico esta postagem a Lilian. Sua avó está hospitalizada devido a idade avançada. Espero que ela melhore e que estas palavas sirvam de conforto.

terça-feira, 13 de julho de 2010

O mal da felicidade 2 – a salvação de uma farra


(Dedico esta postagem a Sophia. Não a conheço pessoalmente, mas é a maior leitora e comentarista do meu blog. Pessoas como ela motivam a dinâmina deste pequeno tripé para o mundo das letras. Se for solteira e gata, louvada seja. Se for feia e comprometida, abençoada seja.)

Quem canta, seus males espanta. Mas quem silencia, nem sempre seus males anuncia. Então, por que temos sempre que nos incomodar com aquele nosso amigo que está calado, pensativo em um momento de muita euforia coletiva? Por que temos que discriminá-lo, logo ele, que costuma nos presenteia com um imenso prazer em forma de presença? Será que é por isso? Estamos tão habituados com um prazer que a sua presença alegre nos proporciona de modo que se torna inadmissível o fato da sua alegria eufórica não esteja tão presente quanto a sua pessoa física? É aí que impera o regime ditatorial da felicidade. Não aceitamos a presença de pessoas morgadas* em ambientes vigiados pelo exército vermelho da felicidade. Todos somos componentes deste exército, e se nos comportamos de maneira “morgada”, é sinal de que estamos traindo nossa corporação. Ainda posso ir um pouco mais além: Trata-se de um exercito fraco, pois carece de autonomia individual, mecanismo de sobrevivência fundamental em casos de falha do sistema coletivo. Dá pra entender até que a tal felicidade não emana do nosso interior – como acontece com o glorioso conhecimento. Parece que ela vem de fora, nos tornando dependentes de ambientes alegres tal qual um viciado em crack ou uma pessoa carente de afeto.



Retomando a premissa inicial: quem silencia, nem sempre seus males anuncia. Isso. Apesar do erro de concordância por seguir a rega popular, este ditado inventado por mim diz respeito a qualidades que podem possuir algumas pessoas que estão silenciosas em momentos de muito barulho. Elas podem estar refletindo sobre algo, analisando o ambiente, zelando pelos amigos por livre e espontânea vontade. Sem que o momento nos permita dar conta disso, essas pessoas acabam sendo muito importantes em momento de farra. Tomo a farra como exemplo por representar a alegria a qual me refiro; e mais, subsidiadas por elementos simbólicos da suposta alegria: álcool, mulheres, música, e por aí vai. O silencioso pode assumir um papel mais importante que muitos dos outros que estão inseridos no contexto não podem assumir. Muito além disso, pode ser a pessoa mais disposta a bater um papo diferenciado do contexto. Por essas e outras é que ele pode ser a salvação da farra, aquele elemento capaz de nos fazer realmente felizes. Claro, ele pode estar preocupado com algum particular, mas há de ser respeitar segundo a boa moral; e fazendo isto, nos sentimos bem melhor ajudando este amigo do que finalizando a farra com algum sexo frustrante. Podemos viver momentos de sinceridade e ternura tendo a farra como pano de fundo, lembramos sempre de que aquela felicidade toda é fugaz e incomparável à nobreza de espírito que um certo silêncio da noite pode nos trazer.

*Termo popular, que de tão vago, designa qualquer comportamento que se assemelhe a melancolia ou que não corresponda com os padrões limitados da alegria exaltada em harmonias coletivas

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O tempo existencial e Norma Bengell


Ontem vivi uma experiência quase psicótica, de desejar romper friamente com a realidade e me entregar de vez ao mundo dos sonhos. Não foi devido a nenhum sentimento político ou social; foi mais existencial mesmo, dessas em que a função do tempo sobre nós, mostrando o início e o fim das coisas, caiu como uma tempestade sobre a minha consciência. Permitam-me explicar melhor, depois de cair na gandaia ontem, cheguei bêbado em casa, fui dormir e tive o seguinte sonho: “Estávamos todos reunidos em um momento de confraternização, eu e a minha família toda da geração que me precede - só que todos estavam mais jovens, com aparência física de 25 a 30 anos. Quem estava presente nesta festa, não sei por qual motivo, era Norma Bengell, musa do cinema, da música e do teatro brasileiro dos anos 60. Conversei bastante com ela, não me lembro qual assunto, me deixei derramar no seu olhar hipnotizante e me derreti de paixão como uma bola de sorvete no calor da praia de boa viagem.”


Até aí tudo bem, pois enquanto sonho tudo era permitido já que não existem barreiras lógicas, éticas e morais para o nosso inconsciente. Porém, ao acordar, o peso da realidade me fez cair uma dúvida inquietante: “como estará Noma Bengell hoje em dia”? Vale ressaltar que a Norma Bengell que apareceu nos meus sonhos se encontrava no mesmo estado de conservação da Norma Bengell de Noite Vazia – excelente filme de 1964 dirigido pelo saudoso Walter Hugo Khouri. Não hesitei... Pulei da cama ainda sobre efeito do uísque de algumas horas atrás e corri para o computador para procurar na internet algum registro atual de Norma Bengell. Encontrei uma entrevista com ela feita por Antônio Abujamra no seu programa “provocações”, e adivinhem... quase caí de costas. Norma estava acabada, destroçada, desfigurada pelo tempo. Nem de longe lembrava aquela Norma de Noite Vazia, ou de “o pagador de promessas”, outro filme inesquecível dirigido por Anselmo Duarte em 1962. Pra vocês terem uma idéia, nessa época, Norma chegou até a ser comparada com Brigitte Bardot. Recentemente, ela atuou no programa “Toma lá, dá cá”, no papel de Deise, uma moradora sapatão do edifício Jambalaya.

Mas, voltemos ao surto. Depois de quase cair para trás ao ver Norma Benguell hoje em dia, novamente me ocorreu um certo pensamento que em muitos momentos da minha vida me atordoa: “Somos seres humanos e vivemos sob a sensação de dominarmos a natureza. Acreditamos que temos o total controle de nossas vidas nas mãos, que temos sempre planos para o amanhã e temos métodos, instrumentos... enfim... capacidade suficiente para sermos senhores da nossas vidas”. Tal sensação também se traduz em momentos de alegria que temos com nossos amigos, quando o mundo parece parar de girar para dar lugar ao eterno. É quando comunicamos aos nossos amigos: “vamos marca outro encontro desses”, “vamos ser sempre amigos”. São momentos em que ignoramos que o Tempo, senhor do início e do fim e de todas as mudanças que ocorrem na natureza, está agindo de maneira fria e impiedosa sobre nós. Não me refiro ao tempo cronológico, mas ao tempo existencial, aquele que mostra que o agora já não é mais, que tudo está correndo em direção ao fim. Tal realidade se revela de forma cruel, mostrando que isso existe, quando procuramos viver cada dia tentando esquecer. Creio que cheguei a esta sensação por assistir a muitos filmes antigos e por conseqüência testemunhar o ontem e o hoje sobre as coisas. O medo da morte, de não saber o que existe depois dela e de saber que ela se aproxima desde quando nascemos estão constantemente presentes neste complexo sensacional. Me conforta a perspectiva de Norma que vive cada momento como se fosse o último, sem tantas preocupações com o futuro. Norma foi uma mulher que viveu intensamente uma vida de grandes amores e grandes lutas, e nunca perdeu a sua vaidade e feminilidade que a mocidade poderia ter tirado com o peso do tempo existencial.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O seu corpo é uma nuvem (poesia)


Autor: Mateus Barros

Tão longe para com as mãos tocar
Tão perfeita em suas formas
Para com a vista se adimirar
Seu corpo é como uma nuvem
Que escurece num céu de inverno
E brilha no sol do verão
O observador contempla com os olhos
E com a força da imaginação

Uma nuvem se funde com outra
Um corpo que agora está em outro
Agora não é mais um e outro
São apenas um
Mas se uma próxima nuvem vier
Que chova

A nuvem parece macia
Tal qual sua pele sedosa
Tamanha é a semelhança
Só falta a nuvem ter olhos e cabêlos
Se ao por do sol vejo a nuvem rosada
Nela sinto o seu cheiro

Se eu me sinto sozinho
Sem um amor para fazer
Dos meus pensamentos, um lugar
Vejo uma nuvem sem rosto
Milhares de corpor bonitos
Porém, todos iguais
Vejo nuvens no céu a passar

E se um dia eu me der conta
Que meu amor não está mais neste mundo
Quero olhar para o céu
Numa noite fria de inverno
Quero que todas as nuvens chovam sobre mim
Até que um dia, além das nuvens, eu possa te encontrar

quarta-feira, 14 de abril de 2010

O caso Adimar, uma frouxidão no sistema penal Brasileiro



'Não consigo parar de matar', diz assassino em série em Goiás como assim publicou a reportagem da folha de são Paulo na internet. O furo de ontem foi sobre a decisão judicial pela liberdade de Adimar Jesus da Silva, pedreiro condenado em 2005 a 14 anos de prisão por crime de pedofilia. Em dezembro do ano passado, Adimar foi beneficiado com a progressão da pena, podendo responder em liberdade. Mal foi solto e o monstro cometeu seis crimes contra menores de idade: na tentativa de seduzi-los, ele conduz as vitimas para um terreno baldio e os mata a pauladas. A decisão judicial pela progressão da pena foi concebida pelo Juíz Luís Carlos de Miranda, observando que o condenado havia alcançado as metas comportamentais que a pena previa: bom comportamento e senso de responsabilidade. O mais interessante a se observar é que o mesmo relatório judicial continha o diagnóstico de Psicopata, antes concebido por exames nas áreas de psiquiatria forense e criminologia ao qual o condenado fora submetido.


O caso Adimar, o monstro de Luziânia, foi apenas mais um exemplo das falhas ocorridas no sistema penal Brasileiro. Isso sem falar nas brechas existentes no código penal que como muitos já sabem, existem para que criminosos das elites possam se beneficiar. Mas não vamos falar disto, pois o caso de Adimar vai além: trata-se de uma frouxidão nas relações existentes entre a lei e seus instrumentos de aplicação – neste caso, a psiquiatria forense e a criminologia – e não exatamente nas leis em si. O psiquiatra forense Guido Palomba disse na reportagem do jornal nacional de 12 de abril de 2010 que ao condenado deveria se aplicar uma medida de segurança, onde o preso seria completamente isolado, devendo retornar à sociedade somente quando a periculosidade fosse cessada. A observação sobre o bom comportamento do preso foi equivocada ignorando completamente o diagnóstico de psicopata quando este estava incluso no relatório do juiz. O fato é que um psicopata possui a capacidade de fazer o jogo dissimulado apenas para alcançar seus objetivos. Ou seja, munido de sua inteligência e sensação de ser poderosamente superior às pessoas a sua volta, Adimar simulou todo o bom comportamento e consciência que a pena estimava, coisa que o sistema prisional não prevera. É óbvio que a lei falhou neste ponto, mas devemos refletir sobre isso. Penso que a justiça como um poder supremo, deveria aperfeiçoar o seu modo de análise das pessoas e dos fatos, pois do mesmo modo como a progressão não deveria ser dada a Adimar, muitos são condenados injustamente no Brasil. Uma medida a ser tomada é adotar um sistema rígido de vigilância para ex-presidiários e pessoas em regime aberto e semi-aberto. Gilmar Mendes falou sobre uma certa pulseira eletrônica usada para monitorar os passos dessas pessoas, permitindo que as autoridades ajam a um passo a frente do suposto criminoso. É o regime de vigilância que Foucault tanto teorizava, como sendo algo mais econômico para o estado. A tecnologia está a serviço disso. O regime super fechado deveria prevalecer para criminosos da periculosidade de Adimar e outros que não necessariamente portadores de alguma patologia, como os grandes traficantes de drogas, estupradores, seqüestradores, torturadores e assassinos. A eles, a prisão perpétua, outra medida discplinar que há muito já deveria ter sido adotada no Brasil.