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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O pensamento luz da virada do novo século



Não consigo dormir, por isso resolvi escrever. Passei as últimas três semanas me preparando para uma prova de residência em saúde mental que aconteceu ontem. Terminando a prova, fui extravasar no morro da conceição e lá encontrei uma garota. Não sei se perdi o sono por causa dela ou por causa da prova. Deixa para lá, pois não é sobre isto que quero falar agora. Quero mesmo é falar de um filme que eu assisti pela terceira vez no sábado à noite em que antecedeu a prova – como sempre costumo fazer nas vésperas dos concursos públicos. O filme se chama “ponto de mutação” (“Mindwalk”, no original), é de 1990 e foi levemente adaptado do livro homônimo de Fritjot Capra. É realmente um filme para ver e rever várias vezes devido ao seu conteúdo filosófico; e é muito bom, pois cada vez que você o assiste, a compreensão sobre ele aumenta.



A sinopse é simples, pois se trata de um encontro casual entre um político deprimido, um poeta (amigo do político) e uma cientista norueguesa. O encontro acontece em um cenário belíssimo: um castelo medieval ilhado em algum lugar da França. A maré da ilha está baixa, e de repente, este cenário se torna palco para o mais brilhante diálogo já visto na história do cinema. Diálogo este que se estende por todo o filme, pois não se trata de um simples diálogo - dá até para personifica-lo e percebê-lo como o personagem central do filme. Trata-se de uma de uma verdadeira aula de filosofia, e o melhor, com uma linguagem bastante clara, ao alcance da compreensão dos letrados mais medíocres. Fica até difícil para mim, encontrar as palavras certas para descrever o fenômeno que ocorre nesse filme; mas vamos lá, não custa tentar: ... (pausa)... cada personagem traz uma perspectiva - uma visão de mundo – e um sentimento de acordo com a situação em que se encontram – o político fora derrotado na última eleição à presidência dos estados unidos devido ao seu projeto político que em pouco correspondia com os desejos dos eleitores norte-americanos; o poeta se mudara para França por não se adequar ao estilo de vida maniqueísta dos Estados Unidos; e a cientista entrara em recesso do seu projeto de pesquisa sobre raio laser por perceber que este estava sendo financiado para a construção de armas nucleares. A partir disto, cada um expõe o seu ponto de vista, e aquele que se sobressai é, sem dúvida, o da cientista, por se tratar de um pensamento inaugural do novo século. Chama-se Pensamento Sistêmico, também conhecido como “o novo paradigma da ciência”. Pretendo expô-lo de forma grosseira e resumida no próximo parágrafo, mas antes, deixem-me terminar de falar sobre o filme. É interessante você notar o processo de mudança tanto na perspectiva dos personagens quando no quadro emocional em que se encontravam antes da conversa começar. É uma grande lição de como uma conversa profunda pode mudar a vida das pessoas, mais do que muitos benzodiazepínicos.



Agora vamos ao pensamento sistêmico. Como falei no último parágrafo, trata-se de um novo paradigma, uma nova maneira de perceber e fazer. É também conhecido como o novo paradigma da ciência, e ciência considerando a maior amplitude do seu termo, englobando praticamente todas as áreas do conhecimento humano. Em se tratando de um novo paradigma, ele vêm para tomar o lugar do antigo, pois não há mais espaço para o antigo paradigma nos tempos de hoje, e a cientista está de plantão no filme para citar alguns exemplos catastróficos de aplicações do antigo paradigma na atualidade. O antigo paradigma foi inaugurado por René Descartes, e por isso foi também chamado de paradigma Cartesiano. Ele nos ensinou a estudar, e em seguida, tratar de todas as coisas da natureza e do homem como elementos isolados, desconsiderando a relação que existe entre eles. Como exemplo disto: Eu estou sentado na cadeira; eu sou uma coisa e a cadeira é outra, e por isso, terão de me separar da cadeira se quiserem estudar a cadeira e a mim. Isto era feito a fim de se alcançar a maior profundidade possível acerca daquele objeto. Até certo momento do século XX isso foi muito importante para as descobertas científicas; porém, enquanto epistemologia – uma forma de perceber e agir no mundo que está inscrito em toda a cultura – não se aplicava mais. Precisava-se de uma mudança que pudesse abranger as relações existente entre as coisas na sua epistemologia. Foi daí que surgiu o paradigma sistêmico, baseado na teoria geral dos sistemas. Essa teoria concebe um sistema como uma organização de elementos que está sempre em processo de mudança em sua estrutura. Além dos elementos comporem um sistema, cada um representa em si, pois está em constante inteação com outros sistemas. Isso dá uma idéia de movimento constante, por isso, não devemos entender o sistema como uma estrutura estática, mas sim como um pocesso. As coisas compõem sistemas e também são sistemas... os sistemas se articulam com outros sistemas mudando completamente a configuração inicial de todos os envolvidos. Uma família é um sistema, que está encontato com outros sistemas, como o colégio, o trabalho, o bairro, a sociedade. A árvore não é mais apenas uma árvore sozinha, ela está em contato com a floresta, com os animais que lá habitam, com o homem que lá pisa e com o vento que nela sopra. Assim são os sistemas, cadeias de relações que se encontram em constante movimento. É muita coisa para ser dita em uma postagem, por isso, recomendo a leitura do livro “pensamento sistêmico: O novo paradigma da ciência” de Maria José Esteves de Vasconcellos, ou que assistam ao filme “ponto de mutação”. Aos mais ousados, também seria interessante a leitura de livro de Ponto de mutação Fitjot Capra... Esse eu não li ainda, mas já estou pretendendo.