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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Fim do ano passado, Tio Benito e Deus na visão de Henri Bergson




Feliz ano novo atrasado a todos os meus leitores. Obrigado pelo incentivo tia Mércia, Sérgio, Breno e Sophia. Espero que este ano de 2011 possa ser bastante construtivo para todos nós; e que o sucesso não parta somente de acasos ou milagres, mas tenham suas raízes nos nossos esforços individuais e coletivos. Que estes esforços possam ser bem reconhecidos pela luz de nossas consciências. Tive um final de ano um tanto abalado devido a morte do meu tio Benito; o irmão mais querido do meu pai e um sujeito admirado por todos nós, especialmente por mim, que tive um relacionamento distante devido à distância física que nos separava. Ele morava em Macau, no rio Grande do Norte, enquanto sua família mora, em sua maior parte, aqui em Recife. Ele foi um grande professor de ciências sociais (enquanto tal, foi fundador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte em Macau) um grande poeta (teve alguns livros publicados) um grande político (não me lembro dele ter ocupado algum cargo público, mas sempre participou ativamente da política de Macau)... Enfim, um grande homem e um grande fidalgo. Foi, talvez, a pessoa mais importante para a história de Macau nos últimos 30 anos, e nas palavras do seu amigo, padre Murilo: Benito estava a trezentos anos à frente de nós, e só daqui a trezentos anos é que o povo de Macau irá entender as palavras de Benito Barros. E além de Tio Benito, ainda enfrentei um trabalho de apoio psicológico às famílias dos trabalhadores da transposição do Rio São Francisco que foram mortos e feridos devido a uma dinamite que explodiu num momento errado: ocasião em que eles se encontravam a uma distancia inferior a quinhentos metros dá área da explosão. Acompanhei o sepultamento dos mortos e a atenção hospitalar aos feridos, tudo em clima de muito sofrimento e tensão por parte dos familiares. A parte boa foi que esse trabalho me redeu três mil e quinhentos reais ao todo, somando as horas de trabalho (39 horas). Mesmo assim, ainda me senti mal, por pensar que tal bolada só foi possível graças à desgraça dos outros. Mas a vida segue sempre esse caminho cíclico dos que morrem e dos que nascem... e não haverá Deus nem ciência para reverter isso daí. O que eu peço a Deus nessas horas, é que a eternidade seja um bom lugar para todas as almas, além das boas, claro, como a do meu tio Benito. Nas palavras do meu tio Faé: vai que Deus estava precisando dele lá no céu, uma pessoa competente para ocupar o cargo de secretário do universo.

Mas é sobre Deus que eu queria tratar neste texto já que toda essa experiência vivida por mim nos últimos dias de 2010 é, em síntese, uma experiência de vinculação da matéria com o espírito, de sintonia do homem com o sagrado. Na verdade, só vou tratar de um pequeno aspecto dele, pois o todo-poderoso é talvez o mais amplo, mais complexo e mais profundo de todos os assuntos. São muitas linhas de teologia que vêm sendo traçadas até hoje com o intuito de estuda-lo, e portanto, não será um textinho mixuruca de blog que irá abordá-lo em sua totalidade. O contexto que escolho para expor uma visão particular (mas nem tanto, por ser fundamentada filosoficamente) é a da diversidade religiosa que habita todos os habitats humanos do planeta terra. O cenário dessa diversidade mais se assemelha a um mercado de religiões, todos a disposição do homem para que este escolha qual o Deus que ele mais se identifica. Em cada uma delas, Deus possui um nome: Deus, Alá, Buda, Krishina, Olorum ... e outros que não me vêm à mente no momento. Cada um deles é dotado de um sistema de verdades religiosas, valores morais e éticos e histórias dotadas de provérbios à respeito da origem de tudo e de todos. Antigamente, cada religião possuía o seu território de dominação, e a história da população deste território se confundia com a história desta religião. A expansão de uma religião além do seu território ou mesmo a invasão de um território alheio por parte de outra religião muitas vezes resultava em conflitos banhados de sangue. O advento da era moderna, juntamente com a progresso em escala global para uma economia capitalística neoliberal de livre intervenção permitiu com que esses conflitos fossem amenizados em prol de uma abertura, também para as religiões. É uma pena que esta abertura ainda não foi possível para algumas regiões como a do estado da Palestina, que nos dias de hoje, ainda vivencia conflitos religiosos entre judeus e árabes. E apesar da existência ou não de conflitos violentos, o centro da discussão entre os religiosos das diferentes religiões nunca deixa de ser o mesmo: qual Deus é o mais verdadeiro? O meu ou o seu?

Sobre essa questão, eu tenho uma idéia que não é propriamente minha, pois é embasada na visão de um grande filósofo francês: Henri Bergson. Para ele, Deus é o Ser Criador, que criou o mundo, história essa que ouvimos falar antes. A diferença está no plano em que este deus se encontra: Dentro de nós, de modo que podemos alcança-lo através da nossa transcendência, da nossa evolução espiritual, emocional e cognitiva. Diz ele ainda que a poder da criação foi designado também ao homem, e que este pode se aproximar da condição divina, de Deus, quando este exerce o poder criador de forma plena. E vamos além...Criar, na visão de Bergson não significa inventar coisas, descobrir através da ciência; não, é de outra criação que ele trata. É da criação humana que ele trata, aquela que se dá na relação do eu com os outros, na inserção do homem na sociedade. Criar através de uma nova ou antiga relação é permitir o acontecimento da aprendizagem no campo desta; é me fazer presente na vida de uma pessoa mesmo quando estou ausente dela, pois ela carrega o meu modo de ser na construção de sua identidade, e quando estamos juntos, estamos de tal forma que nosso poder criador encontra-se em grau elevadíssimo. Ao estender o seu pensamento sobre o fenômeno criador, Bergson destaca alguns conceitos que são chaves nele. Um deles é a “Intuição”. A intuição se contrapõe às instituições, que são estruturas rígidas localizadas na sociedade, que barram o processo criativo, paralisando o nosso corpo perante o peso as estruturas que estão fora de nós. É na intuição que a vida se movimenta, é nela que reconhecemos o nosso poder perante as instituições e a criatividade possa acontecer na minha relação com estas instituições. Assim sendo, qual religião possui o Deus mais verdadeiro? Eu diria que todas possuem um Deus verdadeiro, pois a verdade está aonde a criação também está. Não adianta eu estar numa religião aonde a criação não aconteça, aonde eu não consiga me ver naquela verdade, de modo que a minha vida não muda e nem eu me torne um ser mais criativo na minha relação com as outras pessoas. Ou seja, a verdade religiosa é um processo singular, pois diz respeito ao despertar do meu processo criador no contato com essa ou aquela religião. É importante destacar também na visão de Bergson, o que ele pensa sobre o Amor. É através do amor que a criação da vida acontece, é a condição para isto; o contrário dele é o contrário da criação; ou seja, a destruição. Se eu me encontro numa religião aonde a verdade dela não faz bem nem a mim e nem às pessoas que estão perto de mim, então não há criação, pois não há aprendizagem, reflexão, liberdade, intuição. Todo como exemplo alguns grupos radicais da religião mulçumana, que atacam os judeus na palestina sob a crença de que é o caminho de Alá para implantar a paz no mundo e varrer o mal da terra. Bem, isso só se consegue debaixo de sangue. Agora, percebam o seguinte: eu não estou falando da religião mulçumana em si, pois esta enquanto religião, ele está a favor da criação entre os seus seguidores. Me refiro aos grupos radicais, bem como outros que existem em outras religiões, que não favorecem o processo criador e terminam por criar mais instituições ao nosso redor. Enquanto um cara religioso, porém, sem religião definida,venho procurando conhecer os dizeres de diversas religiões. Me considero católico apostólico romano, religião sob a qual fui concebido socialmente; mas a minha visão de Deus é a que Henri Bergson me ensinou. Deus é Henri Bergson.

2 comentários:

  1. Caro amigo das palavras, meus sentimentos a sua perda!
    Que 2011 seja renovador, de muita luz, aprendizado, conquistas...um ano feliz!!!
    Estava com saudades dos seus textos!
    Senti plena identificação com o que escreveu e com a filosofia de Henri Bergson sobre Deus, pois creio que esta a mais feliz forma de expressá-lo... amor que converge para criação, que converge para o Criador. Expressão esta verdadeira, sem os devios de fanatismos, manipulações,sem opressão.
    Até o próximo,
    Sophia

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