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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Não gostaria de ser eterno; porém, gostaria de viver oito séculos ... ou mais.



      Completei trinta anos no dia 31 de julho de 2012. Imaginava eu que o momento de tal acontecimento seria suportado por sentimentos melancólicos mais perturbadores. Perturbadora não deixa de ser a ideia de envelhecer e caminhar para a morte certa, algo que deve ser aceito de forma seca, grosseira, e com total isenção de barganha - A passagem do tempo se impõe em nossas vidas com uma violência um tanto quanto ardilosa. Ardilosa devido aos engendramentos culturais sobre o passar do tempo e o consequente envelhecer das pessoas. Só para fazer um paralelo: na cultura milenar do extremo oriente, envelhecer significa acumular sabedoria e ser respeitado com a dignidade que a sua idade lhes permite; já no extremo ocidente em que cá estamos, um culto aos modelos juvenis e a valorização da juventude se espalhou como uma praga na mentalidade da população ao ponto de fazer do envelhecimento, um sinônimo de decadência física e - por mais incrível que pareça - cultural. Tamanhos são os esforços criados para retardar o envelhecimento, para perpetuar aquilo que se esvanece facilmente como a própria vida: a juventude. Mais certo do que isto só mesmo a morte; tão amarga é a certeza como tão exaustiva é a negação utilizada como mecanismo de defesa contra cruel realidade. Aproximando essas duas verdades é que somos levados a crer que a perpetuação da juventude soa como uma ilusão de eternidade – a eternidade aí se encontra na sensação de que a morte possa estar o mais longe possível de nós.  
            Sou um cara que gosta muito de ler e entender sobre a história da humanidade, apesar de isso não condizer com a minha formação acadêmica. Gosto de entender a origem e o estado das coisas atuais a partir do que ocorreu no passado, seja ele recente ou remoto. Faço de livros de história, meus livros de cabeceira. Em meio a essa mania, o novo, nem me parece tão atrativo quanto o passado. Filmes e músicas antigos, tendo como principais referências, os anos 70, 80 e 90, são as minhas melhores opções de distração dentro do meu universo particular. E é justamente nesse momento em que eu mais me assusto, quando vejo artistas de uma época como os anos 70 hoje velhos ou até mortos. Como assim, tão rápido? Os anos 70 foram ontem, afinal. E os anos 80? Pessoa dessa época tão todas envelhecendo também. Eu assisto a um filme dessa época e vejo todos tão lúcidos, vivazes, jovens. De tão veloz, a passagem do tempo é mesmo cruel. E quando visito um passado ainda mais distante, outros séculos atrás nos livros de história, quando a sociedade se apresenta de uma forma bem diferente do que é hoje, é que eu me dou conta de outra realidade cruel: Além do tempo passar rápido, nossas vidas são muito breves. Não dá para atingir todos os nossos objetivos nesse pouco tempo de vida que temos – isso considerando o estado atual das coisas, onde criamos objetivos novos a cada segundo. E já que falei em ‘atual estado das coisas’ penso que a eternidade aqui na terra talvez não fosse o ideal, pois uma vez que a população não para de crescer, é preciso que uns passem a ceder espaço para outros habitarem com um certo conforto aqui na terra. Mas se não pudesse ser a eternidade, que fosse pelo menos a longevidade dos homens que habitaram a terra nos tempos de Moisés. Segundo consta no antigo testamento, esses homens chegavam a viver até 800 anos, ou mais. Após o pecado do dilúvio, foi que Deus resolveu reduzir a vida humana para entre 70 e 120 anos – malditos os homens que deixaram as coisas saírem do controle naquele tempo. E já que falei na bíblia, é sempre bom que pensemos que Deus é bondoso demais conosco, senão não haveria uma eternidade prometida para nós depois dessa vida – na linguagem dos católicos –, uma reencarnação nesse mundo – na linguagem dos espíritas – dentre tantas outras promessas. Não quero pensar no que possa ser justo ou correto divinamente falando, o que penso é: seria um grande ideal de vida para mim, viver pelo menos oito séculos ou mais. Quantas realizações não poderiam ser alcançadas com isso?  Haveria tempo suficiente para cada pessoa dar um real sentido às suas vidas, pois todas as experiências possíveis poderiam ser vividas num ritmo mais serenos e menos desenfreadas. Haveria mais tempo para não fazer nada e ver a vida passar. Enfim, todos os prazeres e desprazeres da vida poderiam ter suas vivências estendidas; afinal não é apenas de prazer que devemos viver, né?
            Saindo um pouco desta queixa, eis que retorno algumas linhas atrás, para a minha experiência de entrada nos 30, pois tem algumas coisas interessantes aí que eu gostaria de compartilhar com os meus leitores. Posso dizer que me preparei para o devido momento, pois algumas decisões foram tomadas meses antes e estas acompanharam um processo de mudança de atitude: Parei de fumar; passei a praticar a minha arte marcial que eu tanto admiro mas que às vezes me assusta devido à violência: o Muay thai; passei a frequentar academia e fazer musculação religiosamente todas as manhãs, acompanhado de suplementos alimentares e outros produtos para malhação. Tais mudanças me proporcionaram ótimos resultados fisiológicos e sociais – Fisiológicos: boa respiração, mais disposição, bom humor, corpo mais forte e bonito; Sociais: resultante das mudanças biológicas, eis que andei recebendo elogios quanto à minha beleza externa e minha energia interior. Em decorrência disto tudo, eis que vem a maior recompensa de todas: estou em paz comigo mesmo, com meu mundo interior e com Deus. E pensar que tudo não passou de um grande investimento narcísico como uma forma de se defender de uma crise maior que se anunciava. E daí? Que seja. Seja saudável ou patológica, o que importa é como você se sente internamente. Patológico não poderia ser então, senão seria uma contradição em termos. O fato é que fisiculturismo tem seus ganhos quando é bem conduzido – e sobre isso, devo acrescentar que a minha cabeça andou funcionando melhor e mais acelerada, apesar disso não ter favorecido uma maior produção para este blog. Tô sentindo a felicidade momentânea, algo como uma parte de uma grande realização, e isto é o que mais importa. Só lamento não ter sentido tal experiência no alvorecer dos meus 20 anos, o que talvez pudesse me favorecer mais conquistas amorosas oriundas de uma maior autoestima. É nessa parte em que mais pesa a limitação da vida: quando percebemos que não podemos voltar no tempo e que passamos a ter menos tempo para desfrutar das nossas conquistas quanto mais tarde as alcançamos. Isso há de se resolver um dia, quando formos capazes de viver oito séculos... ou mais.