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sábado, 2 de julho de 2011

Qualidade de vida e um grão de arroz do pensamento oriental










Só mesmo uma noite de insônia pra me fazer tocar pra frente esse blog. Me sinto bem quando escrevo, porém, não tenho encontrado tanta disposição para tal. Não chamo de preguiça, mas sim de resistência; pode soar redundante, mas creio que não, devido à denotação do segundo termo que se refere a algo que tende a persistir com o tempo. Assim sendo, escrever passa a ser um exercício não só da mente mas também do espírito, que luta contra a ameaça de ter seu movimento congelado no tempo e de presentear o corpo com a sensação de morto enquanto vivo. Mas já que estou com insônia, é sobre qualidade de vida que irei falar.






Já tendo todos os leitores – não só meus, mas de todas as mídias possíveis - uma noção breve sobre qualidade de vida, sinto que podemos começar relacionando o tema com a busca pelo prazer. Que tipo de prazer você costuma cultivar no seu dia a dia? Pequenos prazeres? Bater um prato de arroz com feijão e bife quando se está verdadeiramente com fome? Ouvir música de um repertório preparado por você mesmo e gravado no aparelho celular? Assistir novela, depois um jornal, depois outra novela e depois um filme? Navegar na internet em busca de interesses próprios enquanto conversa com amigos, colegas, conhecidos e paqueras no chat? Transar com a(o) parceira(o)? Fumar cigarros? Fumar um cigarro depois de transar com a(o) parceira(o)? Êh.... vida besta e boa, que de tão boa, não merece a inveja de ninguém. Será isso mesmo? Eis que entra em cena um tema que, uma vez personificado em forma de ator coadjuvante para o enredo deste texto, dispensaria apresentações: qualidade de vida. É uma palavra chave constante nos artigos científicos das ciências humanas e da saúde ocidentais, que buscam instigar a sociedade a reagir contra os danos causados pela modernidade em suas vidas. Politicamente, é uma palavra de ordem; e midiaticamente, é um termo vulgar que se traduz na busca individual pela saúde e bem-estar.Mas por que entra em cena logo este tema? Porque pensar em qualidade de vida e se entregar à busca dos prazeres que a sociedade nos ensinou a olhar com tal não fazem parte de uma mesma proposta. Na verdade, até faria, uma vez que a qualidade de vida envolve, também, o nosso bem estar interior; porém, as consequencias trágicas que a busca por estes prazeres anunciam faz com que nos comportemos diantes dele fazendo jus à teoria do nosso querido Leon Festinger: A teoria das Dissonâncias Cognitivas. Mas não vou falar sobre esta teoria agora... saibam apenas que ela diz respeito a uma situação de extrema oposição entre pensamento e comportamento.






Recentemente, caiu em minhas mãos um livro que trata exaustivamente sobre este tema. Trata-se de uma organização de artigos sobre a promoção da qualidade de vida em crianças e adolescentes com situações de saúde física e mental comprometidas: portadoras de Autismo, Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, Vulnerabilidade Social, Pais separados, Violência na família, e outras mais. Cada artigo apresenta uma metodologia específica para a promoção da qualidade de vida, o que implica em não alterar a idéia central do que vem a ser qualidade de vida: A adoção de perspectiva, por parte dos sujeitos, sobre o seu bem-estar biopsicossocial. Significa algo mais do que simplesmente olhar para a qualidade da sua vida como um valor primordial; mais do que isso, implica o alcance de uma consciência corporal da sua saúde e bem-estar de modo que ela não exista somente na ideia, mas que faça parte do seu modo de vida por completo. Parece algo simples quando expresso com entonação poética, o que não é o caso da promoção da qualidade de vida. Promover a danada significa criar meios para o desenvolvimento da autonomia do sujeito, coisa que muita gente sã não consegue em toda a sua vida. Significa assumir a inteira responsabilidade pelo seu destino, pela sua história que, apesar das circunstancias ambientais, só pode ser escrita por você. É o objetivo a ser alcançado nos trabalhos de psicólogos, pedagogos, assistentes sociais, terapeutas de todas as linhas. É o que nos emprega, o que nos sustenta, e nenhum lugar melhor para abraçar profissionalmente a esta demanda do que todo o nosso mundo ocidental.






Me refiro ao mundo ocidental por ser próprio dele a idéia de que somos vítimas de um mundo globalizado que oprime a nossa singularidade. Ainda estamos presos ao paradigma cartesiano que muito contribuiu para isto, e que nos faz perceber o mundo e a nós mesmos como coisas distantes umas das outras. Para pensamento deste tipo, não somos nada diante da grandeza do mundo, e portanto, nossa vida não passa de um peido de Deus. Já os orientais, com a sua belíssima filosofia milenar, vêem a natureza e o homem como entidades intimamente relacionadas. O taoísmo fala que a natureza possui um fluxo natural igualmente a nós, mas que não o percebemos devido um certo desapego com nós mesmos. Nem me adianto em falar muito sobre isso, pois o maior mestre do Tao, por exemplo, diz que o Tao não pode ser explicado, apenas sentido por cada um de nós. É uma busca interior, que só depende de si mesmo e por si mesmo. Cabe-nos pensar: "até que ponto conseguimos praticar isto?" A meu ver, este caminho é a chave para se alcançar a qualidade de vida, e o trabalho dos profissionais os quais me referi diz respeito a criar condições para que o sujeito possa se desenvolver interiormente. Não é a toa que as terapias holísticas estão em alta.... elas trazem a bagagem do pensamento oriental, o que para muitos significa uma luz num fim do túnel. Só devemos, também, ter cuidado para não vulgarizar o conhecimento trazido por estas práticas que, apesar de soarem como novidades para nossos olhos e ouvidos, são na verdade a origem do equilíbrio mental e espiritual de toda uma sociedade.